Nebulosa Planetária NGC 6563: a bolha de gás oval escondida no Sagitário

Nebulosa Planetária NGC 6563: a bolha de gás oval escondida no Sagitário

O que você precisa saber

A NGC 6563 é uma nebulosa planetária no Sagitário: uma bolha oval de gás liberada por uma estrela que está morrendo.
Ela é fraca (magnitude 11) e exige um telescópio de pelo menos 8 polegadas de abertura para ser vista com detalhes.
Está a apenas 2,5° a oeste de Kaus Australis, a estrela que marca a base do “Bule de Chá” no Sagitário.
Um filtro Oxigênio-III (OIII) ajuda a destacar seu brilho fraco em meio ao céu noturno.

Imagine que você está soprando uma bolha de sabão bem devagar, e essa bolha começa a se esticar até virar uma forma oval, meio torta, brilhando com uma luz verde-azulada fraquinha. Foi mais ou menos isso que aconteceu há milhares de anos com uma estrela parecida com o Sol, só que lá longe, na constelação de Sagitário — e o resultado dessa “bolha cósmica” ainda está lá, boiando no espaço, esperando para ser observado.

Essa bolha se chama NGC 6563, uma nebulosa planetária que, apesar do nome, não tem absolutamente nada a ver com planetas. Ela é o que sobra quando uma estrela do tamanho do Sol chega ao fim da vida e começa a se desfazer, soltando suas camadas externas como se estivesse se despindo de um casaco.

Na noite deste domingo, 19 de julho, essa nebulosa vai estar bem posicionada no céu, alcançando o ponto mais alto de sua trajetória logo depois que a Lua se põe. É um convite perfeito para quem tem acesso a um telescópio maior e quer encontrar um dos objetos mais discretos e charmosos do céu de verão no hemisfério norte.

O desafio é que a NGC 6563 não é como a Lua ou Vênus, que qualquer um enxerga a olho nu. Ela é pequena, fraca, e exige um pouco de paciência e o equipamento certo. Mas para quem gosta de um bom mistério cósmico, vale muito a pena a procura.

O que é, afinal, uma nebulosa planetária?

O nome é enganoso: nebulosas planetárias não têm relação nenhuma com planetas. O apelido veio de astrônomos antigos que, olhando através de telescópios simples, achavam que essas bolhas redondas e esverdeadas pareciam discos de planetas como Urano ou Netuno. Na real, são nuvens de gás.

Pense assim: uma estrela como o Sol vive queimando combustível no seu núcleo, feito uma fogueira que consome lenha. Quando esse “combustível” começa a acabar, a estrela incha, vira uma gigante vermelha, e depois começa a se desfazer: ela solta suas camadas mais externas de gás para o espaço, como se estivesse descascando uma cebola. O que sobra no meio é o núcleo quente da estrela, chamado de anã branca, que ilumina esse gás solto igual a uma lanterna dentro de um balão translúcido. É esse “balão” iluminado que enxergamos como nebulosa planetária.

Esse processo não dura muito, em termos astronômicos: durante algumas dezenas de milhares de anos, o gás vai se dissipando lentamente, até sumir de vista. Ou seja, estamos vendo a NGC 6563 num momento relativamente curto e especial da vida dessa estrela morta — como tirar uma foto de uma vela que está se apagando, bem no instante em que a fumaça ainda forma um desenho no ar.

Imagem da nebulosa planetária NGC 6563 capturada pelo instrumento MUSE do Very Large Telescope do ESO
A nebulosa planetária NGC 6563, no Sagitário, revela sua estrutura de gás ionizado nesta imagem captada com o instrumento MUSE do Very Large Telescope (VLT) do ESO — a bolha oval é o que resta de uma estrela parecida com o Sol.

Uma estrela moribunda escondida no centro

No coração da NGC 6563 existe uma estrela pequena e extremamente quente — sua superfície chega a temperaturas de mais de 100 mil graus Kelvin, muito mais quente que a superfície do Sol, que “só” tem cerca de 5.500°C. É essa radiação ultravioleta intensa que ioniza o gás ao redor, fazendo-o brilhar, do mesmo jeito que uma lâmpada fluorescente acende quando a eletricidade excita o gás dentro do tubo de vidro.

A nebulosa tem cerca de 48 segundos de arco de diâmetro aparente — para efeito de comparação, é um tamanho minúsculo no céu, quase 40 vezes menor que a Lua cheia vista da Terra. Mas em termos reais, ela mede uma fração de um ano-luz de raio e fica a milhares de anos-luz de distância de nós, então o que parece pequeno no céu é, na verdade, gigantesco em termos absolutos.

Como achar a NGC 6563 no céu desta noite

Para localizar essa nebulosa, o primeiro passo é achar o “Bule de Chá” (Teapot), um desenho informal de estrelas dentro da constelação de Sagitário que lembra, bem literalmente, um bule com bico e alça. Ele é um dos asterismos mais fáceis de reconhecer no céu de verão do hemisfério norte.

A NGC 6563 fica bem perto da base desse bule, a apenas 2,5° a oeste da estrela Kaus Australis (Épsilon Sagitarii), de magnitude 1,8, que marca o canto onde o bico encontra o corpo do bule. Para ter uma ideia de distância, 2,5° é aproximadamente cinco vezes o diâmetro aparente da Lua cheia — dá para “varrer” essa região com o dedo esticado no céu sem se perder.

Essa área do céu fica logo acima da cauda encurvada do Escorpião, mais perto do horizonte. Por volta das 23h no horário local, a nebulosa estará bem posicionada no sul do céu, no seu ponto mais alto — o melhor momento para observação, já que ela estará menos afetada pela turbulência atmosférica próxima ao horizonte.

Por que você precisa de um telescópio grande (e de um filtro especial)

Com magnitude 11, a NGC 6563 é bem mais fraca do que qualquer coisa visível a olho nu — para comparação, as estrelas mais fracas que conseguimos ver sem ajuda ficam ao redor da magnitude 6. Isso significa que é preciso um telescópio de pelo menos 8 polegadas de abertura para começar a distinguir essa nebulosa como algo mais do que um pontinho.

Um truque usado por observadores experientes é o filtro Oxigênio-III (OIII), um acessório que deixa passar principalmente a luz emitida por átomos de oxigênio ionizado — que é, coincidentemente, o tipo de luz que domina em nebulosas planetárias como essa. É como usar óculos de sol especiais que bloqueiam quase tudo, menos exatamente a cor que você quer enxergar melhor; o céu de fundo escurece, mas a nebulosa continua brilhando, e o contraste fica muito mais evidente.

Em telescópios modestos, a NGC 6563 vai aparecer como um discozinho sem muitos detalhes. Mas quem tiver acesso a um telescópio de 14 polegadas ou mais vai notar algo interessante: as bordas externas da bolha de gás são um pouco mais brilhantes que o centro, dando a ela aquele aspecto de “anel grosso” característico de muitas nebulosas planetárias.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas frequentes

O que é uma nebulosa planetária, resumindo?
É uma nuvem de gás solta por uma estrela parecida com o Sol quando ela chega ao fim da vida. O núcleo quente que sobra ilumina esse gás, fazendo-o brilhar por alguns milhares de anos antes de se dissipar no espaço.

Por que a NGC 6563 é tão difícil de ver?
Porque ela é pequena (48 segundos de arco) e fraca (magnitude 11). Isso exige um telescópio de pelo menos 8 polegadas de abertura, de preferência com um filtro Oxigênio-III, para realçar seu contraste contra o céu escuro.

Qual a diferença entre nebulosa planetária e nebulosa onde nascem estrelas?
São processos opostos. Nebulosas como a de Órion são berçários, onde gás e poeira colapsam para formar novas estrelas. Já as nebulosas planetárias, como a NGC 6563, marcam o fim da vida de uma estrela, quando ela solta suas camadas externas.

Dá para ver a NGC 6563 a olho nu?
Não. Com magnitude 11, ela está bem abaixo do limite de visão a olho nu, que fica em torno de magnitude 6 em céus bem escuros. É necessário um telescópio de amadores de porte médio a grande.

Referências

Astronomy.com — The Sky Today on Sunday, July 19: An oval-shaped nebula
ESO — The planetary nebula NGC 6563 observed with MUSE and the AOF
ESA/Hubble — Wordbank: Planetary Nebula
NASA Space Place — What Is a Nebula?

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