Ofiúco: a constelação com 7 aglomerados globulares que você precisa conhecer

Ofiúco: a constelação com 7 aglomerados globulares que você precisa conhecer

O que você precisa saber

Ofiúco tem sete objetos do catálogo Messier — todos aglomerados globulares visíveis com binóculos comuns
A região de Rho Ophiuchi é um dos campos nebulosos mais coloridos e fotogênicos do céu noturno
O melhor período para observar é de maio a agosto, quando a constelação fica alta no céu brasileiro
A nebulosa escura Barnard 44 se estende por 6,5° — equivalente a 13 Luas cheias enfileiradas no céu

Existe uma constelação que quase todo mundo ignora, mas que guarda sete tesouros estelares prontos para ser descobertos. Seu nome é Ofiúco — ou, em português, “o portador da serpente” — e ela fica bem entre Escorpião e Sagitário, numa das regiões mais ricas do céu noturno.

Se você nunca ouviu falar dela, não se preocupe. Ofiúco não é famosa como Órion ou Cruz do Sul, mas para quem gosta de explorar o céu com telescópio ou binóculos, ela é simplesmente generosa: são sete objetos do catálogo Messier — uma lista histórica compilada pelo astrônomo francês Charles Messier no século XVIII com as “pérolas” mais bonitas do céu profundo — todos visíveis entre maio e agosto, quando a constelação sobe alto no horizonte.

O que é um aglomerado globular?

Antes de explorar os tesouros de Ofiúco, é preciso entender o que você vai enxergar. Os sete objetos Messier da constelação são todos aglomerados globulares. Mas o que é isso?

Imagine uma tigela cheia de amendoins. Agora imagine que esses amendoins são estrelas — centenas de milhares delas — todas amontoadas juntas, num formato quase perfeitamente esférico. Isso é um aglomerado globular: uma bola compacta de estrelas muito antigas, mantidas unidas pela gravidade mútua, que orbita ao redor do centro da nossa galáxia como um satélite artificial orbita a Terra — mas em escala cósmica.

Ao telescópio, um aglomerado globular parece uma bolinha de luz difusa, mais brilhante no centro e gradualmente apagando nas bordas. Com telescópios maiores, é possível começar a enxergar as estrelas individualmente — e aí a visão é de tirar o fôlego.

Os sete tesouros de Messier em Ofiúco

Os sete aglomerados globulares da constelação são: M9, M10, M12, M14, M19, M62 e M107. Cada um tem suas particularidades.

M10 e M12 são os favoritos dos observadores. Ficam separados por apenas 3,5° no céu — o equivalente a sete Luas cheias colocadas lado a lado — e cabem juntos no campo de visão de um binóculo 10×50. M10 fica a cerca de 14.000 anos-luz da Terra, enquanto M12 está um pouco mais distante, a 16.000 anos-luz. Para ter uma ideia do que isso significa: um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano inteiro viajando a 300.000 quilômetros por segundo. São distâncias que fazem qualquer avião parecer uma tartaruga parada no asfalto.

Aglomerado globular M10 na constelação de Ofiúco fotografado pelo Telescópio Espacial Hubble NASA ESA
M10, um dos sete aglomerados globulares de Ofiúco, contém centenas de milhares de estrelas antigas compactadas numa esfera de 80 anos-luz de diâmetro, a apenas 14.000 anos-luz da Terra.

M62 e M19 têm uma característica incomum: ambos são assimétricos, com mais estrelas de um lado do que do outro. Isso acontece porque ficam muito próximos do centro da nossa galáxia — a gravidade intensa desse centro os “puxa” levemente para um lado, como um balão de borracha esticado pela mão de uma criança.

M14 é mais rico e mais distante — cerca de 30.000 anos-luz — e apresenta um núcleo denso e bonito ao telescópio médio. M9, por sua vez, fica tão próximo do centro galáctico que nuvens de poeira interestelar deixam sua aparência levemente avermelhada ao olhar pelo telescópio, como quando o sol fica alaranjado próximo ao horizonte por causa da fumaça na atmosfera. Já M107, redescoberto em 1782, é um dos aglomerados mais espalhados da lista — ideal para iniciantes que querem começar a resolver suas estrelas individuais com telescópios modestos.

A joalheria cósmica: a região de Rho Ophiuchi

Se os aglomerados globulares são os tesouros de Ofiúco, a região de Rho Ophiuchi é o estojo que os guarda. Trata-se de um dos campos celestes mais coloridos que existem — e fica a “apenas” 460 anos-luz da Terra, sendo a região de formação estelar mais próxima do nosso sistema solar.

O nome vem da estrela dupla Rho (ρ) Ophiuchi, de magnitude 4,6. Magnitude é a escala de brilho usada pelos astrônomos: quanto menor o número, mais brilhante o objeto. É o oposto do que parece intuitivo — pense como uma classificação de filmes ao contrário, onde nota 1 seria o melhor de todos. Com magnitude 4,6, essa estrela dupla é perfeitamente visível a olho nu em noites escuras.

Ao redor dela se estende um complexo de nebulosas de emissão e nebulosas de reflexão. Qual é a diferença? Uma nebulosa de emissão é como uma placa de néon: o gás é aquecido pelas estrelas próximas e emite sua própria luz, geralmente em tons de vermelho e rosa. Já uma nebulosa de reflexão funciona como a neblina na estrada à noite: ela não brilha sozinha — apenas reflete a luz estelar ao redor, aparecendo em tons de azul.

Em Rho Ophiuchi você vê os dois tipos juntos, criando uma tapeçaria cósmica de vermelho e azul que é um sonho para astrofotógrafos. Cruzando essa cena está a Barnard 44, uma nebulosa escura — uma nuvem densa de poeira que bloqueia a luz das estrelas atrás dela, como uma sombra projetada no céu. Ela se estende por incríveis 6,5°, o equivalente a 13 Luas cheias enfileiradas. O Telescópio Espacial James Webb capturou essa região em detalhes nunca vistos antes, revelando mais de 50 estrelas jovens em plena formação dentro dessas nuvens.

Como e quando observar

O melhor período para observar Ofiúco no Brasil é entre maio e agosto, quando a constelação fica alta no céu após o anoitecer. Quanto mais escuro o local, melhor: fuja das luzes da cidade sempre que possível — aquela viagem para o interior pode valer muito a pena.

Para os aglomerados globulares, um binóculo 10×50 já é suficiente para enxergar manchas de luz difusa. Com um telescópio de 150 mm (6 polegadas), você começa a resolver as estrelas individuais dos aglomerados mais próximos, como M10 e M12. Para uma experiência completa com M14 e M9, um telescópio de 200 mm ou mais faz toda a diferença.

Para a região de Rho Ophiuchi, o melhor instrumento é uma câmera com longa exposição acoplada a um telescópio ou a uma lente grande-angular. A olho nu você verá um campo estelar denso e bonito — mas as cores exuberantes de vermelho e azul só se revelam na fotografia de longa exposição.

Perguntas frequentes

Preciso de telescópio para ver os objetos Messier de Ofiúco?
Não necessariamente. Os mais brilhantes, como M10 e M12, aparecem como pequenas manchas difusas em binóculos 10×50. Para ver detalhes e resolver estrelas individuais, um telescópio de 4 a 6 polegadas faz muita diferença.

Ofiúco é visível do Brasil?
Sim! O Brasil tem posição privilegiada para observar Ofiúco. A constelação fica bem alta no céu entre maio e agosto, especialmente em latitudes como São Paulo, Rio de Janeiro e região Centro-Oeste.

O que é o catálogo Messier?
É uma lista de 110 objetos celestes compilada por Charles Messier no século XVIII. Ele queria evitar confundir cometas com nebulosas e aglomerados — e acabou criando um dos guias de observação mais usados até hoje.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Referências

https://esawebb.org/images/weic2316a/
https://esahubble.org/images/potw1225a/

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