Star City: como a série da Apple TV reinventou a corrida espacial soviética
O que você precisa saber
• “Star City” é a nova série derivada de “For All Mankind”, que imagina um universo onde a União Soviética chega à Lua antes dos Estados Unidos.
• Nenhuma cena foi filmada na Rússia: a produção usou a Lituânia, aproveitando prédios brutalistas que sobraram da era soviética.
• O visual “imperfeito” da série foi inspirado em fotos reais de Moscou tiradas nos anos 1950 por um diplomata americano suspeito de espionagem.
Imagine ligar a televisão numa manhã de julho de 1969 esperando ver astronautas americanos pisando na Lua — e, em vez disso, ver cosmonautas soviéticos comemorando a conquista primeiro. Essa pequena mudança na história é o ponto de partida de “Star City”, spin-off de “For All Mankind” que acaba de encerrar sua primeira temporada, aclamada pela crítica, na Apple TV.
Enquanto “For All Mankind” contava o lado americano dessa corrida espacial alternativa, “Star City” vira a câmera para o outro lado da Cortina de Ferro. A série leva o nome do verdadeiro centro de treinamento de cosmonautas que existe até hoje perto de Moscou — um lugar tão secreto, décadas atrás, que nem diplomatas estrangeiros conseguiam se aproximar dele.
Recriar esse mundo fechado e cinzento da União Soviética, sem filmar um único dia na Rússia, foi um desafio e tanto para a equipe de produção. O resultado é uma fotografia deliberadamente “suja”, cheia de imperfeições — uma escolha artística que, segundo o diretor de fotografia Brendan Uegama, tornou a história mais verdadeira do que qualquer cenário perfeitamente iluminado conseguiria.
Vamos entender como essa reconstrução histórica foi feita, o que é real e o que é ficção nessa versão alternativa da corrida à Lua — e por que uma caixa de fotos esquecida numa garagem nos Estados Unidos ajudou a moldar o visual de toda a série.
A verdadeira Cidade das Estrelas, o centro que deu nome à série
O nome “Star City” não é invenção dos roteiristas. Zvyozdny Gorodok, que significa literalmente “cidadezinha das estrelas”, é um lugar real a cerca de 30 quilômetros de Moscou, criado em 1960 por proposta do projetista-chefe soviético Sergei Korolev. É lá que fica o Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin, batizado em homenagem ao primeiro humano a ir ao espaço.
Pense em Star City como uma cidade dentro de uma base militar: tinha (e ainda tem) escola, correio, cinema, estação de trem e até um museu, tudo isolado do resto do mundo. Era um lugar pensado para que cosmonautas e suas famílias vivessem, treinassem e guardassem segredos sem contato com estrangeiros — praticamente uma bolha hermeticamente fechada, como um laboratório onde nada podia vazar para fora. O centro segue funcionando até hoje, agora sob controle da Roscosmos, e ainda recebe astronautas internacionais para treinamento, inclusive parceiros da NASA e da ESA.
Na série, esse centro real vira o palco de uma história alternativa: em vez de perder a corrida à Lua, os soviéticos vencem, e Star City se torna o centro do orgulho nacional soviético, quase como um Cabo Canaveral escondido atrás da Cortina de Ferro.
Como recriar a Guerra Fria sem filmar na Rússia
Filmar em Moscou estava fora de cogitação, então a produção foi buscar outro lugar que ainda guardasse a atmosfera da época. A escolha caiu sobre a Lituânia, ex-república soviética onde muitos prédios de arquitetura brutalista — aqueles blocos de concreto pesados, retos e cinzentos, típicos do estilo soviético — continuam de pé.
É como decorar uma casa antiga sem poder visitar a casa original: você procura móveis e texturas de época em outro lugar que ainda preserve aquele estilo. Foi exatamente isso que a equipe fez, usando os prédios lituanos como uma espécie de “duplo” fiel da Moscou dos anos 1960 e 1970.
O diretor de fotografia Brendan Uegama resumiu a filosofia da série: em vez de perseguir imagens bonitas e polidas, como costuma acontecer em produções de época, a equipe optou por um visual mais cru e “feio”, porque isso parecia mais verdadeiro ao que realmente teria sido viver ali.
As fotos secretas de um diplomata que vieram de uma garagem
Para acertar o clima visual, Uegama estudou fotos e jornais antigos — e sua principal fonte de inspiração veio de um lugar improvável. Nos anos 1950, o diplomata americano Martin Manhoff (também suspeito de ser espião) fotografou secretamente o cotidiano soviético, incluindo cenas do funeral de Josef Stalin vistas de dentro da embaixada dos EUA.
Quando Manhoff foi expulso da União Soviética sob suspeita de espionagem, ele trouxe consigo caixas de slides e rolos de filme. Esse material ficou esquecido por décadas dentro de caixas de papelão guardadas numa antiga oficina de carros na região de Seattle, só sendo redescoberto após sua morte, em 2005.
É como achar um álbum de fotos de um bisavô no fundo do porão, décadas depois de todos terem esquecido que ele existia: de repente, um pedaço perdido do passado volta à vida. Foi justamente esse material que ajudou Uegama a entender como era, de verdade, a luz, as ruas e as pessoas da União Soviética daquela época.
A câmera como testemunha: o visual “encontrado” de Star City
Uegama não queria que as cenas parecessem cuidadosamente montadas, como em um filme tradicional de estúdio. Ele buscava a sensação de ter simplesmente entrado numa sala e fotografado o que já estava ali, sem arrumar nada — como se a câmera fosse uma testemunha acidental, e não uma diretora da cena.
Para alcançar esse efeito “granulado” e imperfeito, típico das filmagens de televisão dos anos 1960, a equipe usou quase 30 lentes diferentes, fabricadas por 11 empresas distintas. Cada lente tem pequenas imperfeições próprias — um pouco de distorção aqui, uma cor levemente diferente ali — meio como usar câmeras de celulares de gerações diferentes para fotografar a mesma festa: cada imagem carrega uma textura única, e o conjunto parece mais autêntico do que se tudo fosse filmado com um único equipamento perfeito.
Quando a ficção reescreve a história real
Na vida real, o programa espacial soviético sofreu uma sequência de desastres na corrida à Lua. Sergei Korolev, o projetista-chefe que mantinha tudo em segredo, morreu durante uma cirurgia em 1966. Anos depois, o gigantesco foguete lunar soviético N1 explodiu de forma espetacular num teste sem tripulação, apenas duas semanas antes da Apollo 11 decolar rumo à Lua em 1969. Sem um foguete lunar funcional, os soviéticos abandonaram a corrida.
“Star City” reescreve esse desfecho: o Chief Designer sobrevive à cirurgia de 1966, e um N1 totalmente funcional leva uma tripulação à Lua menos de um mês antes da Apollo 11. É como reescrever o final de uma partida de futebol que seu time perdeu nos últimos minutos — a série pega o mesmo início de jogo real, mas muda o resultado final, e mostra como o mundo teria comemorado se a bola tivesse entrado do outro lado.
Luna 16, Venera 7 e a mulher que “pisou” na Lua fictícia
A série usa missões espaciais reais como base para inventar versões ainda mais ousadas. Na ficção, uma missão chamada Luna 16 leva a primeira mulher à superfície da Lua, tornando-se um símbolo do orgulho soviético. Na realidade, a verdadeira Luna 16, lançada em 1970, não levou ninguém à Lua: foi uma sonda robótica que pousou sozinha, coletou cerca de 101 gramas de solo lunar com um braço mecânico e trouxe essas amostras de volta à Terra — a primeira vez que isso foi feito sem astronautas a bordo, algo como enviar um “braço robótico entregador” até a Lua e trazê-lo de volta cheio de terra lunar.
A série também imagina uma missão tripulada secreta a Vênus, batizada de Venera 7, organizada às escondidas pelo Chief Designer em 1970. Isso é pura invenção: pousar humanos em Vênus seria impossível, já que a superfície do planeta chega a quase 475°C, quente o bastante para derreter chumbo. Mas a verdadeira Venera 7 também fez história em 1970, só que sem tripulação: foi a primeira sonda a pousar suavemente em Vênus e enviar dados da superfície de volta à Terra, mesmo sobrevivendo por poucos minutos àquele forno planetário antes de ser destruída pelo calor e pela pressão extremos.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Perguntas frequentes
“Star City” é baseada em fatos reais?
Parcialmente. O centro de treinamento Star City existe de verdade e a série usa eventos e missões reais, como Luna 16 e Venera 7, como ponto de partida. Mas a trama principal — soviéticos vencendo a corrida à Lua e enviando uma missão tripulada a Vênus — é totalmente fictícia.
Por que a série não foi filmada na Rússia?
Por questões práticas e políticas, a produção optou por gravar na Lituânia, ex-república soviética que ainda preserva prédios de arquitetura brutalista da época, suficientes para recriar visualmente a atmosfera da União Soviética dos anos 1960 e 1970.
Star City ainda existe e funciona hoje?
Sim. O verdadeiro centro de treinamento de cosmonautas Yuri Gagarin, perto de Moscou, continua ativo até hoje, sob comando da agência espacial russa Roscosmos, e recebe astronautas de várias nações para treinamento.
Qual é a relação entre “Star City” e “For All Mankind”?
“Star City” é um spin-off direto de “For All Mankind”, série da Apple TV que imagina a mesma linha do tempo alternativa a partir do ponto de vista americano. Enquanto uma mostra o lado dos Estados Unidos, a outra mostra o lado soviético da mesma corrida espacial reimaginada.
Referências
Universe Today — How ‘Star City’ Reimagined the Space Race With Soviets as the Stars
Wikipedia — Star City, Russia (Zvyozdny gorodok)
NASA Science — Luna 16, a primeira missão robótica de retorno de amostras lunares
Space.com — Venera 7, o primeiro pouso suave em Vênus, lançada há 45 anos




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