Pulsar Olho Azul: astrônomos captam sinais de rádio após décadas de silêncio

Pulsar Olho Azul: astrônomos captam sinais de rádio após décadas de silêncio

O que você precisa saber

Astrônomos captaram sinais de rádio muito fracos vindos de uma estrela de nêutrons chamada 1E 1207.4-5209, apelidada de “Pulsar Olho Azul”, que ficou em silêncio total por décadas.
O objeto pulsa a cada 424 milissegundos e fica a 10 mil anos-luz da Terra, no centro de um remanescente de supernova na Via Láctea.
A descoberta sugere que pode existir uma população escondida de pulsares “sussurrantes” que os telescópios simplesmente não conseguiam ouvir até agora.

Imagine ligar o rádio todos os dias, por mais de vinte anos, sempre sintonizando a mesma estação — e só ouvir estática. Você começaria a duvidar que existe alguma coisa transmitindo ali. Foi mais ou menos isso que aconteceu com um grupo de estrelas mortas espalhadas pela nossa galáxia: elas deveriam estar “falando” em ondas de rádio, mas ficaram caladas por décadas.

Agora, uma dessas estrelas finalmente quebrou o silêncio. Astrônomos usando um telescópio na África do Sul captaram um sinal de rádio tão fraco que parecia um sussurro, vindo de um objeto conhecido como 1E 1207.4-5209. Ele ganhou um apelido mais fácil de lembrar: Pulsar Olho Azul.

A descoberta não é só uma curiosidade sobre uma estrela distante. Ela pode mudar a forma como os cientistas contam quantos pulsares existem escondidos na Via Láctea — e por que alguns deles pareciam estar “desligados” o tempo todo.

Para entender por que esse sussurro é tão importante, é preciso primeiro entender o que é um pulsar e por que ele deveria estar gritando, não sussurrando.

O que é um pulsar, afinal?

Quando uma estrela muito mais massiva que o Sol chega ao fim da vida, ela explode em um evento chamado supernova. É uma das explosões mais violentas do universo, brilhando por semanas mais forte que uma galáxia inteira. Depois da explosão, o que sobra do núcleo da estrela pode colapsar sob o próprio peso e se transformar em um dos objetos mais densos que existem: uma estrela de nêutrons.

Uma estrela de nêutrons é tão compacta que uma colher de chá do seu material pesaria mais do que todos os carros do planeta juntos. E, como um patinador que gira mais rápido quando encolhe os braços, o núcleo da estrela original começa a girar em altíssima velocidade ao colapsar.

Muitas dessas estrelas de nêutrons nascem com um campo magnético gigantesco, forte o bastante para lançar partículas em jatos que saem quase na velocidade da luz pelos polos magnéticos. Esses jatos emitem ondas de rádio. Como a estrela gira muito rápido, o jato varre o espaço como o feixe de luz de um farol marítimo — e, se a Terra estiver no caminho desse feixe, nós o vemos “piscar” em intervalos regulares. É esse piscar que os astrônomos chamam de pulsar.

O Pulsar Olho Azul pisca a cada 424 milissegundos, ou seja, gira sobre si mesmo mais de duas vezes por segundo — rápido o suficiente para deixar qualquer ventilador de teto com inveja.

As estrelas que deveriam brilhar, mas ficam em silêncio

Nem toda estrela de nêutrons no centro de uma supernova se comporta como um farol giratório. Cerca de uma dezena delas, descobertas até hoje, são completamente silenciosas em ondas de rádio. Os astrônomos as chamam de “objetos compactos centrais”, ou CCOs (na sigla em inglês).

Pense nos CCOs como lâmpadas que deveriam acender e apagar em um ritmo constante, mas que, por algum motivo, permanecem sempre apagadas — mesmo estando ligadas na tomada. Uma das explicações mais aceitas é que o campo magnético dessas estrelas seja fraco demais para produzir o jato de rádio característico dos pulsares comuns. Sem um campo magnético forte, não há energia suficiente para acelerar partículas e criar o “farol” de rádio.

Só que, se essa lâmpada realmente estivesse desligada, ela nunca deveria acender, nem um pouco. E foi exatamente aí que a nova descoberta surpreendeu os cientistas: a lâmpada nunca esteve totalmente apagada. Ela só estava piscando baixinho demais para os equipamentos mais antigos perceberem.

Como o Pulsar Olho Azul foi flagrado sussurrando

Uma equipe liderada por Zhang Lei, do Observatório Astronômico Nacional da China, decidiu apontar um dos telescópios de rádio mais sensíveis do mundo, o MeerKAT, na África do Sul, diretamente para o CCO 1E 1207.4-5209. É como trocar um rádio velho de pilha por um equipamento profissional de estúdio de gravação: de repente, sons que antes eram indistinguíveis do chiado de fundo começam a fazer sentido.

E funcionou. Escondido dentro do que antes parecia ruído estático, os pesquisadores encontraram um sinal de rádio pulsando exatamente a cada 424 milissegundos — o mesmo ritmo de giro já conhecido da estrela através de observações em raios X. Era como reconhecer a voz de alguém mesmo depois de anos sem ouvi-la: o “tom” batia perfeitamente com o que os cientistas já esperavam.

Essa correspondência entre o período de rotação em rádio e o período já medido em raios X deixou os astrônomos confiantes de que não se tratava de um erro de instrumento ou de interferência. O objeto estava, de fato, emitindo ondas de rádio — só que numa intensidade tão baixa que precisou de décadas de avanço tecnológico para ser captada.

Por que “Olho Azul”?

O apelido curioso não tem nada a ver com a cor real da estrela — nenhum telescópio comum enxergaria uma “cor” ali, já que estrelas de nêutrons não emitem luz visível como o Sol. O nome veio de uma combinação de imagens.

Quando os astrônomos sobrepõem a nova emissão de rádio, agora finalmente detectada, com as imagens já conhecidas em raios X — que mostram a estrela de nêutrons brilhando intensamente nesse tipo de radiação — o resultado visual lembra um olho azulado observando o espaço. Foi o professor Li Di, da Universidade Tsinghua, na China, quem deu à estrela esse apelido, batizando-a de “Blue Eye Pulsar”, ou Pulsar Olho Azul.

É um pouco como combinar duas fotografias tiradas com câmeras diferentes — uma sensível ao calor, outra à luz normal — e perceber que, juntas, elas formam uma imagem inesperada e reveladora.

O que essa descoberta muda para a astronomia

Se um CCO que parecia completamente silencioso na verdade só estava sussurrando, é provável que outros objetos “silenciosos” espalhados pela nossa galáxia também estejam escondendo sinais fracos demais para os telescópios mais antigos captarem. Isso significa que o número real de pulsares na Via Láctea pode ser bem maior do que se pensava.

É como descobrir que, numa sala cheia de pessoas em silêncio, várias delas na verdade estavam sussurrando o tempo todo — só que ninguém tinha um aparelho auditivo bom o suficiente para perceber. Agora que os astrônomos sabem que esse tipo de sussurro existe e sabem como procurá-lo, telescópios como o MeerKAT podem vasculhar outros CCOs conhecidos em busca de sinais parecidos.

Essa descoberta também ajuda a entender melhor como os campos magnéticos das estrelas de nêutrons evoluem ao longo do tempo, e por que alguns pulsares brilham forte enquanto outros mal conseguem emitir um sinal perceptível.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas frequentes

O que é um pulsar?
Um pulsar é uma estrela de nêutrons que gira muito rápido e emite feixes de ondas de rádio pelos seus polos magnéticos. Como a Terra só vê esse feixe quando ele aponta em nossa direção, o efeito é parecido com o giro de um farol, fazendo a estrela parecer “piscar” em intervalos regulares.

Por que o Pulsar Olho Azul ficou tanto tempo em silêncio?
Os astrônomos acreditam que seu campo magnético é relativamente fraco, o que torna seu sinal de rádio extremamente fraco — fraco demais para os telescópios mais antigos captarem. Só com o MeerKAT, um radiotelescópio de última geração, foi possível detectar o sussurro da estrela.

A que distância fica o Pulsar Olho Azul da Terra?
Ele está a cerca de 10 mil anos-luz de distância, dentro da nossa própria galáxia, a Via Láctea. Apesar de parecer muito longe, essa é uma distância relativamente próxima em termos astronômicos, dentro do “quintal” da nossa galáxia.

Isso significa que existem mais pulsares escondidos no universo?
É bem provável. Se um objeto que parecia completamente silencioso na verdade estava emitindo um sinal fraco demais para ser detectado, outros “objetos compactos centrais” parecidos podem estar escondendo pulsares igualmente tímidos, esperando por telescópios sensíveis o suficiente para ouvi-los.

Referências

Space.com — Astronomers discover radio signals coming from rare ‘Blue Eye Pulsar’ after decades of silence
South African Radio Astronomy Observatory (SARAO) — MeerKAT Radio Telescope
National Astronomical Observatories, Chinese Academy of Sciences

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