Linear A: como uma Inteligência Artificial reacendeu a busca pela escrita perdida de Creta
O que você precisa saber
• Um engenheiro autodidata usou um assistente de IA para testar uma hipótese sobre a escrita Linear A, indecifrada há mais de 100 anos.
• O resultado, ainda sem confirmação científica, propõe valores para 40 sinais e um léxico de 408 palavras.
• A IA não teve a ideia sozinha: ela testou, em minutos, um palpite humano contra milhares de caracteres — um trabalho que levaria meses feito à mão.
Imagine encontrar um caderno cheio de anotações, com letras organizadas e frases bem definidas, mas escrito em um idioma que ninguém no mundo consegue ler. Agora imagine que esse caderno tem mais de 3.500 anos, veio de uma ilha grega chamada Creta, e nem os melhores linguistas do planeta sabem ao certo que língua é essa.
Esse “caderno” existe de verdade. Chama-se Linear A, e por mais de um século resistiu a todas as tentativas de decifração. Arqueólogos sabem onde os textos foram encontrados e em que época foram escritos, e até reconhecem os símbolos — mas não sabem que sons eles representam, nem o que as frases realmente dizem. É como segurar um livro inteiro nas mãos e não conseguir ler nem a capa.
Em junho de 2026, essa história ganhou um capítulo inesperado. Um engenheiro de software autodidata, sem formação acadêmica em linguística, resolveu usar uma ferramenta de inteligência artificial para testar uma ideia que teve sobre uma única palavra. O resultado, ainda em análise por especialistas, é uma das tentativas mais ousadas já feitas para reabrir esse mistério.
Um quebra-cabeça com mais de 100 anos
O Linear A é o sistema de escrita usado pelos minoicos, a civilização que dominou a ilha de Creta durante a Idade do Bronze, muito antes da Grécia clássica. Ele é “primo” de outra escrita, o Linear B, que registrava transações administrativas em grego arcaico e foi decifrado em 1952 pelo arquiteto e linguista amador Michael Ventris — um dos maiores triunfos da história da linguística.
O problema é que o Linear A não teve a mesma sorte. Toda escrita antiga já decifrada precisou de uma “âncora”: um texto bilíngue, como a Pedra de Roseta, que traduz a mesma mensagem em duas línguas — uma conhecida, outra não. É como ter a legenda de um filme estrangeiro: mesmo sem entender o idioma original, dá para comparar frase por frase e aprender o significado. O Linear A nunca teve essa legenda. Todo o corpus conhecido, cerca de 7.500 caracteres espalhados por tabuinhas de argila, vasos e selos, está isolado, sem nenhum texto paralelo em uma língua já conhecida.

Um programador amador entra na história
Foi nesse cenário que, em junho de 2026, o engenheiro autodidata Tom Di Mino decidiu tentar algo diferente. Ele não é linguista de profissão — estuda o tema como hobby. Tudo começou com um palpite simples: um sinal isolado, numa inscrição de caráter religioso (uma fórmula de libação, um tipo de oferenda ritual), poderia vir de uma raiz semítica que significa algo como “habitar” ou “morar”, parecida com palavras do hebraico e do aramaico atuais.
Sozinho, esse palpite não prova nada — línguas têm milhares de coincidências sonoras que não significam parentesco real. É como notar que uma palavra em português soa parecida com outra em um idioma estrangeiro: pode ser coincidência, ou pode ser uma pista real. A diferença está em testar essa pista contra uma quantidade enorme de dados. E foi exatamente aí que a inteligência artificial entrou.
O que a Inteligência Artificial realmente fez
Di Mino usou o Claude Code, um assistente de IA da Anthropic feito para programação, para construir scripts em Python capazes de vasculhar dois grandes bancos de dados acadêmicos de Linear A, o GORILA e o SigLA, que reúnem fotografias e transcrições de praticamente todas as inscrições conhecidas.
A IA não teve a ideia — quem teve foi o próprio Di Mino. O papel dela foi outro: pegar aquele palpite sobre uma única palavra e testá-lo, sinal por sinal, contra milhares de caracteres, procurando padrões que se repetissem de forma consistente. É como se você suspeitasse que uma receita de bolo funciona em qualquer forno, mas em vez de testar forno por forno, um assistente testasse mil fornos ao mesmo tempo, em poucos minutos, e dissesse exatamente onde a receita deu certo e onde falhou. Um trabalho que levaria meses feito à mão foi comprimido em muito menos tempo.
Os números por trás do anúncio
O resultado do processo, segundo o próprio Di Mino, foi a atribuição de valores sonoros a 40 sinais do Linear A — 13 deles sem leitura conhecida até então — e um léxico de 408 palavras traduzidas para o inglês. Como um efeito colateral, o mesmo método também teria resolvido cinco valores sonoros que ainda estavam em aberto no Linear B, a escrita “irmã” já decifrada — funcionando como um teste de controle: se o método funciona numa escrita cuja resposta já conhecemos, ele merece mais confiança quando aplicado a uma que não conhecemos.
A conclusão apresentada por Di Mino, reunida em um artigo de nove páginas, é a de que o Linear A seria um idioma extinto da família semítica — a mesma família do hebraico e do aramaico. É uma hipótese e tanto: se confirmada, mudaria o que se sabe sobre quem eram os minoicos e de onde vieram.

Nem tudo está resolvido: o que dizem os especialistas
É importante frisar: nada disso foi confirmado pela comunidade científica. O material de Di Mino foi compartilhado, de forma informal, com linguistas das universidades de Rutgers e Cambridge para uma primeira avaliação — mas, até o momento, não existe validação formal nem publicação revisada por pares.
A pesquisadora Jane Adkins, da Dublin City University, resume bem o ceticismo saudável que qualquer descoberta assim precisa enfrentar: o cruzamento estatístico de padrões “não consegue fabricar significado do nada”. Em outras palavras, por mais rápido que um assistente de IA seja para testar milhares de combinações, ele não substitui a ausência daquela “legenda bilíngue” que toda escrita decifrada até hoje precisou ter. Nas palavras dela, a IA foi “uma assistente muito rápida para um quebra-cabeça muito antigo e muito humano” — não a autora da descoberta, e não uma garantia de que ela está certa.
A IA também está reescrevendo outros mistérios do passado
O caso do Linear A não é isolado. Em 2026, o mesmo tipo de parceria entre humanos e IA ajudou a “desenrolar” virtualmente um pergaminho carbonizado de Herculano, cidade romana soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. — revelando cerca de 1,5 metro de texto grego contínuo, com reflexões sobre ética e natureza humana escritas por um filósofo estoico. Outro grupo usou um sistema de IA para testar centenas de variações de regras de um jogo de tabuleiro romano, gravado há dois mil anos numa laje de pedra, até encontrar a combinação que batia com o desgaste físico das peças.
Em todos esses casos, o padrão se repete: a IA não substitui o raciocínio humano, mas multiplica sua velocidade. Ela testa, cruza e descarta hipóteses numa escala que nenhuma equipe de pesquisadores conseguiria alcançar sozinha em uma vida inteira — mas a pergunta certa, a ideia inicial, ainda precisa vir de uma mente humana curiosa o bastante para fazê-la.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Perguntas frequentes
O que é a escrita Linear A?
É o sistema de escrita usado pelos minoicos, civilização que viveu na ilha de Creta durante a Idade do Bronze, entre cerca de 1800 e 1450 a.C. Diferente do Linear B, que documentava grego arcaico e já foi decifrado, o Linear A permanece sem tradução confirmada até hoje.
A Inteligência Artificial decifrou completamente o Linear A?
Não. O que existe é uma hipótese, proposta por um pesquisador amador com ajuda de IA, ainda sem confirmação da comunidade científica. Especialistas de Rutgers e Cambridge estão analisando o material de forma informal, mas nenhuma decifração foi oficialmente validada.
Como exatamente a IA ajudou nesse processo?
A ferramenta usada, o Claude Code, testou uma hipótese humana sobre o som de um sinal contra milhares de caracteres registrados em bancos de dados acadêmicos do Linear A, procurando padrões consistentes — um trabalho de meses feito em muito menos tempo. A ideia inicial, porém, partiu de uma pessoa, não da IA.
Por que o Linear A é mais difícil de decifrar do que outras escritas antigas?
Porque falta a ele uma “âncora”: um texto bilíngue como a Pedra de Roseta, que permitiu decifrar o egípcio antigo, ou registros administrativos como os que ajudaram a decifrar o Linear B. Sem uma tradução conhecida para comparar, qualquer hipótese sobre o Linear A é muito mais difícil de confirmar.
Referências
Ars Technica — What happens when you put AI to work deciphering lost languages
The Conversation — Cracking the code: can AI help us decipher ancient languages?
ASCII News — Self-taught engineer claims Linear A decipherment using AI tools
AX Brief — Claude Code deciphers the century-old mystery of Linear A




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