Temporada de Galáxias: o que ver no céu de primavera

Temporada de Galáxias: o que ver no céu de primavera

Por que a primavera é a melhor época para ver galáxias?

Imagine que o céu noturno é uma janela. Durante boa parte do ano, essa janela fica “bloqueada” pelo plano da nossa própria galáxia, a Via Láctea, cheia de poeira e estrelas que dificultam a visão do que está além. Na primavera, no hemisfério norte, a Terra se posiciona de forma que essa janela se abre para o espaço profundo. É como se você saísse de dentro de uma floresta densa e, de repente, pudesse enxergar o horizonte infinito.

De março a maio, as constelações de Leão e Virgem dominam o céu noturno. É exatamente nessa direção que se encontram os aglomerados de galáxias mais próximos da Terra: o Aglomerado de Virgem e o Aglomerado de Coma. Juntos, eles abrigam milhares de galáxias, muitas delas comparáveis à nossa Via Láctea em tamanho e grandiosidade.

Finn Burridge, Comunicador Científico do Real Observatório de Greenwich, explica bem: “As constelações de Leão e Virgem são onde ficam nossos aglomerados de galáxias mais próximos, e na primavera essas constelações estão melhor visíveis à meia-noite, o ponto mais escuro do dia.”

A maioria dessas galáxias é muito tênue para ser vista a olho nu. Mas um telescópio com abertura de pelo menos 15 centímetros (6 polegadas) já consegue revelar a luz antiga dessas estruturas cósmicas, especialmente em locais afastados da poluição luminosa das cidades.

Como observar galáxias: dicas essenciais para iniciantes

Galáxias são objetos desafiadores. Sua luz viajou por dezenas de milhões de anos até chegar aos seus olhos, e por isso chegam muito fraca. Existem algumas técnicas simples que fazem toda a diferença na hora de observar.

A primeira é a visão periférica (ou “olho desviado”). Em vez de olhar diretamente para a galáxia no ocular do telescópio, desvie levemente o olhar para o lado. As células da retina responsáveis pela visão em baixa luminosidade ficam nas bordas do olho, não no centro. Esse truque simples pode revelar detalhes que seriam invisíveis de outra forma.

A segunda dica é evitar noites de lua cheia. A luz da Lua polui o céu tanto quanto as luzes da cidade, apagando os objetos mais tênues. Escolha noites de lua nova ou crescente, quando a Lua se põe cedo.

Por fim, lembre-se: galáxias raramente aparecem coloridas no ocular do telescópio. Elas costumam surgir como um halo nebuloso de luz ao redor de um núcleo mais brilhante, às vezes com indícios de faixas escuras de poeira. A cor só aparece em fotografias de longa exposição.

Tripleto de Leão (M65, M66 e NGC 3628)

O Tripleto de Leão é um dos alvos mais populares da temporada. São três galáxias espirais localizadas a cerca de 30 milhões de anos-luz da Terra, todas dentro de 1 grau no céu — o equivalente à largura do seu dedo mindinho esticado a distância do braço. Isso significa que cabem juntas no campo de visão de um telescópio de jardim.

Para encontrá-las, localize a constelação de Leão no céu sudeste após o pôr do sol. Identifique as estrelas Chertan e Iota Leonis A, que formam uma das patas traseiras do leão celeste. O Tripleto fica exatamente entre essas duas estrelas.

Das três, a M66 é a mais fácil de ver, com seu núcleo brilhante visível em telescópios de 15 cm. A M65 é um pouco mais tênue. Já a NGC 3628 — apelidada de “Galáxia Hambúrguer” por causa de sua faixa de poeira central — é a mais difícil, exigindo céus escuros e telescópios maiores para ser apreciada em detalhes.

Galáxia de Bode (M81) e Galáxia Charuto (M82)

Na constelação da Ursa Maior, a Galáxia de Bode (M81) brilha a 11,6 milhões de anos-luz de distância com magnitude aparente de 6,9 — uma das galáxias mais brilhantes visíveis no hemisfério norte. Para ter uma ideia, a magnitude mede o brilho dos objetos celestes: quanto menor o número, mais brilhante o objeto. O olho humano consegue ver até magnitude 6,5 em céus muito escuros.

Ao lado da Galáxia de Bode, a menos de 1 grau no céu, está a Galáxia Charuto (M82). Ela ganhou esse apelido por sua forma alongada e irregular. Atualmente, a M82 está passando por uma explosão de formação estelar, impulsionada pela influência gravitacional de sua vizinha M81 — como se a gravidade de uma galáxia “espremesse” a outra, acelerando o nascimento de novas estrelas.

Para encontrá-las, localize o famoso asterismo do Carro (ou Ursa Maior) no céu nordeste. Identifique as estrelas Phecda (base da “concha” do carro) e Dubhe (a ponta de cima). Trace uma linha imaginária entre as duas e continue por uma distância equivalente. Varra essa região com o telescópio e você encontrará as duas galáxias juntas no campo de visão.

Galáxia Sombrero (M104)

A Galáxia Sombrero é uma das mais fotografadas do céu. Localizada a 28 milhões de anos-luz, na direção da constelação de Virgem, ela se apresenta quase de lado para nós, revelando um disco achatado com uma proeminente faixa de poeira escura — exatamente como a aba de um chapéu mexicano, daí o nome.

O Telescópio Espacial Hubble a fotografou com riqueza de detalhes, revelando seu núcleo brilhante e suas faixas de poeira. Com um telescópio de 15 cm, você já consegue ver o núcleo luminoso. Com 20 cm ou mais, em uma noite de céu limpo, é possível perceber a sugestão da faixa de poeira escura que corta a galáxia ao meio.

Para encontrá-la, localize Spica, a estrela mais brilhante de Virgem, que sobe no céu sudeste nas horas ao redor da meia-noite na primavera. Em seguida, procure as quatro estrelas mais brilhantes da constelação Corvus, que formam um padrão de diamante à direita de Virgem. As duas estrelas superiores são Gienah (direita) e Algorab (esquerda). Uma linha de estrelas tênues se estende diagonalmente a partir de Gienah, passando acima de Algorab — siga essa linha e ela o levará diretamente à Galáxia Sombrero.

Galáxia Redemoinho (M51a)

A Galáxia Redemoinho (M51a) é um espetáculo à parte. Ela fica a 31 milhões de anos-luz de distância, na constelação Canes Venatici, e se apresenta de frente para nós — o que nos permite admirar a beleza completa de seus braços espirais. Sua intensa formação estelar foi desencadeada pela influência gravitacional da galáxia companheira NGC 5195, cujo núcleo brilhante pode ser visto em uma das extremidades da estrutura espiral da Redemoinho.

Para encontrá-la, localize novamente o Carro na Ursa Maior. Identifique a estrela Alkaid, a mais externa das três que formam o “cabo” da constelação. Imagine que o Carro é uma panela deitada sobre uma mesa e mova seu telescópio “para baixo” a partir de Alkaid, cerca de 4 graus — pouco menos que a largura dos seus três dedos do meio esticados a distância do braço. Você encontrará dois manchas leitosas de luz: a Galáxia Redemoinho e sua companheira NGC 5195.

Cadeia de Markarian

Por fim, chegamos a um dos alvos mais impressionantes da temporada: a Cadeia de Markarian. Trata-se de uma fileira de galáxias cujo brilho antigo se estende entre as constelações de Leão, Virgem e Coma Berenices. O nome homenageia o astrofísico armênio Benjamin Egishevich Markarian, que descobriu que várias dessas galáxias compartilham movimentos e distâncias semelhantes, indicando que pertencem ao mesmo aglomerado.

Entre as galáxias mais brilhantes da cadeia estão a M84 e a M86, verdadeiros pesos-pesados galácticos com bilhões de estrelas cada. No meio da cadeia, um par de galáxias conhecidas simplesmente como “Os Olhos” brilha a cerca de 50 milhões de anos-luz de distância em Virgem. Elas ficaram deformadas por interações gravitacionais com suas vizinhas — um lembrete de que o universo está em constante movimento e transformação.

Para encontrar a Cadeia de Markarian, localize a estrela Denébola (magnitude 2), que marca a cauda do leão em Leão, e a estrela Vindemiatrix (magnitude 3) em Virgem. A cadeia fica no trecho de céu diretamente entre essas duas estrelas.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas Frequentes

Preciso de um telescópio caro para ver galáxias?
Não necessariamente. Um telescópio com abertura de 15 cm (6 polegadas) já permite observar os núcleos das galáxias mais brilhantes, como M81 e M66. Para detalhes como faixas de poeira, telescópios maiores (20 cm ou mais) são mais indicados.

Qual é o melhor horário para observar galáxias na primavera?
O ideal é observar após a meia-noite, quando as constelações de Leão e Virgem atingem seu ponto mais alto no céu. Evite noites com lua cheia e prefira locais afastados das luzes da cidade.

Por que as galáxias parecem cinzas no telescópio e coloridas nas fotos?
O olho humano não detecta cores em condições de baixa luminosidade. As células responsáveis pela visão colorida (cones) precisam de mais luz para funcionar. As fotografias astronômicas usam longas exposições que acumulam luz por horas, revelando as cores que nossos olhos não conseguem captar.

Referências

https://www.space.com/stargazing/galaxy-season-spring-brings-deep-space-wonder-to-the-northern-hemisphere-night-sky
https://www.skyatnightmagazine.com/advice/galaxy-season-spring
https://agenaastro.com/articles/general-astronomy-info/best-25-deep-sky-objects-spring
https://www.celestron.com/blogs/knowledgebase/the-ultimate-guide-to-observing-the-spring-sky-northern-hemisphere
https://astrobackyard.com/8-deep-sky-targets-galaxy-season/

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