Oceano de Magma: Novo Tipo de Exoplaneta Permanece Derretido por 5 Bilhões de Anos

Oceano de Magma: Novo Tipo de Exoplaneta Permanece Derretido por 5 Bilhões de Anos

Um planeta coberto de lava por 5 bilhões de anos

Imagine um planeta onde o chão nunca esfriou. Onde, em vez de oceanos de água, existem oceanos de rocha derretida, borbulhando a temperaturas altíssimas. Esse lugar existe, e fica a apenas 35 anos-luz da Terra. Seu nome é L 98-59 d, e ele acaba de ser reconhecido como representante de um novo tipo de exoplaneta.
Um estudo publicado na revista Nature Astronomy em março de 2026 revelou que esse mundo molten, ou seja, completamente derretido, mantém um vasto oceano de magma há quase 5 bilhões de anos. Isso é algo sem paralelo no nosso Sistema Solar, e muda a forma como os cientistas classificam os planetas fora do Sol.

O que é um exoplaneta e por que L 98-59 d é tão especial?

Um exoplaneta é qualquer planeta que orbita uma estrela diferente do nosso Sol. Até hoje, os astrônomos catalogaram mais de 5.000 deles. A maioria se encaixa em categorias conhecidas: planetas rochosos como a Terra, gigantes gasosos como Júpiter, ou mundos de água. Mas L 98-59 d não se encaixa em nenhuma dessas caixas.
Descoberto em 2019 pelo telescópio espacial TESS da NASA, o planeta tem 1,64 vezes a massa da Terra e 1,627 vezes o seu raio. Sua densidade é de apenas 2,2 gramas por centímetro cúbico, o que equivale a cerca de 40% da densidade da Terra. Para ter uma ideia, isso é bem mais leve do que qualquer planeta rochoso que conhecemos. Algo muito diferente está acontecendo lá dentro.

O papel do enxofre: o ingrediente secreto

O segredo por trás desse planeta extraordinário é o enxofre, um elemento químico que aqui na Terra tem cheiro de ovo podre e é encontrado perto de vulcões. No caso de L 98-59 d, o enxofre é o protagonista.
O enxofre é o que os cientistas chamam de elemento siderófilo, ou seja, ele tem uma forte atração pelo ferro. Quando a Terra era jovem e estava derretida, o ferro afundou até o núcleo do planeta, arrastando grandes quantidades de enxofre junto. Esse enxofre no núcleo terrestre ajuda a manter o núcleo externo líquido, o que por sua vez gera nosso campo magnético protetor.
Em L 98-59 d, esse processo foi muito mais extremo. O planeta possui um manto de silicato derretido, semelhante à lava terrestre, e abaixo dele existe um oceano de magma que se estende por milhares de quilômetros. Esse oceano de magma é riquíssimo em enxofre, e é justamente isso que mantém o planeta derretido há bilhões de anos.

Como o JWST revelou os segredos da atmosfera

O Telescópio Espacial James Webb (JWST) é o maior e mais poderoso telescópio espacial já construído. Ele consegue analisar a luz que passa pela atmosfera de um exoplaneta e identificar quais gases estão presentes, como um detetive químico do espaço.
Quando o JWST apontou para L 98-59 d, encontrou uma atmosfera espessa, rica em hidrogênio e repleta de gases com enxofre, como o sulfeto de hidrogênio (H2S) e o dióxido de enxofre (SO2). O H2S é o mesmo gás responsável pelo cheiro de ovo podre. Em concentrações altas, como as encontradas nesse planeta, seria absolutamente letal para qualquer forma de vida que conhecemos.
O mais intrigante é que esses gases deveriam ter sido varridos pelo vento estelar da estrela anã vermelha que L 98-59 d orbita. Estrelas anãs vermelhas são conhecidas por emitir rajadas de radiação que destroem atmosferas de planetas próximos. Mas a atmosfera de L 98-59 d persiste. Por quê?

O oceano de magma como uma máquina de reabastecimento

A resposta está no próprio oceano de magma. Aqui na Terra, quando o magma esfria e solidifica, ele libera gases em um processo chamado de desgaseificação. Pense nisso como uma garrafa de refrigerante sendo aberta: o gás que estava preso dentro escapa para a superfície.
Em L 98-59 d, esse processo nunca parou. Como o oceano de magma é imenso e continua derretido, ele constantemente libera gases de enxofre para a atmosfera. Cada vez que a estrela destrói parte da atmosfera, o oceano de magma a reabastece. É um ciclo contínuo que manteve a atmosfera intacta por quase 5 bilhões de anos.
Os pesquisadores da Universidade de Oxford, liderados por Harrison Nicholls, modelaram computacionalmente toda a história de 5 bilhões de anos do planeta. Eles concluíram que L 98-59 d provavelmente era maior no passado, mais parecido com um sub-Netuno, e foi encolhendo ao longo do tempo por perda de atmosfera e resfriamento gradual.

Uma nova categoria de planetas

Essa descoberta tem implicações enormes para a astronomia. Até agora, os cientistas usavam categorias simples para classificar planetas pequenos: planetas rochosos, anões gasosos ou mundos de água. Mas L 98-59 d não é nenhum desses.
O co-autor Raymond Pierrehumbert, professor de Física da Universidade de Oxford, resumiu bem a importância do achado: “O que é empolgante é que podemos usar modelos computacionais para revelar o interior oculto de um planeta que jamais visitaremos. Embora os astrônomos só possam medir o tamanho, a massa e a composição atmosférica de longe, esta pesquisa mostra que é possível reconstruir o passado profundo desses mundos alienígenas.”
As missões futuras PLATO e ARIEL, da Agência Espacial Europeia (ESA), prometem estudar atmosferas de milhares de exoplanetas na Via Láctea. Com mais dados, é provável que encontremos muitos outros planetas como L 98-59 d, representantes de uma classe completamente nova de mundos que não temos no nosso Sistema Solar.

O que isso significa para a busca por vida?

L 98-59 d certamente não abriga vida como a conhecemos. Temperaturas extremas, atmosfera tóxica de enxofre e a ausência de água líquida tornam isso impossível. Mas sua existência nos lembra de algo fundamental: o universo é muito mais criativo do que nossa imaginação.
Cada novo tipo de planeta descoberto amplia nossa compreensão do que é possível no cosmos. E quem sabe, em algum desses mundos estranhos e inesperados, a vida encontrou uma forma de existir que ainda não somos capazes de imaginar.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas frequentes

O que é um oceano de magma? Um oceano de magma é uma camada de rocha completamente derretida que cobre ou está no interior de um planeta. Na Terra jovem, isso durou apenas alguns milhões de anos antes de esfriar. Em L 98-59 d, esse estado persiste há 5 bilhões de anos.
Por que L 98-59 d cheira a ovo podre? Sua atmosfera é rica em sulfeto de hidrogênio (H2S), o mesmo gás responsável pelo odor característico de ovos podres e áreas vulcânicas. Em concentrações tão altas quanto as desse planeta, seria imediatamente letal.
Esse planeta pode ter vida? Não, pelo menos não como a conhecemos. As temperaturas extremas, a atmosfera tóxica e a ausência de água líquida tornam L 98-59 d completamente inóspito para a vida.

Referências

https://www.nature.com/articles/s41550-026-02815-8
https://www.ox.ac.uk/news/2026-03-16-researchers-reveal-new-class-molten-planet
https://www.space.com/astronomy/exoplanets/astronomers-discover-a-new-type-of-planet-that-probably-smells-like-rotten-eggs
https://phys.org/news/2026-03-class-molten-planet-abundant-sulfur.html

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