Asteroide Bennu: fraturas internas explicam a superfície rochosa misteriosa

Asteroide Bennu: fraturas internas explicam a superfície rochosa misteriosa

O que você precisa saber

O asteroide Bennu tem a superfície coberta de grandes pedregulhos, não de areia fina como se esperava.
A missão OSIRIS-REx da NASA coletou amostras de Bennu e as trouxe à Terra em 2023.
Fraturas internas microscópicas nas rochas explicam por que Bennu perde calor tão rapidamente.
Bennu é classificado como Asteroide Potencialmente Perigoso e passa perto da Terra a cada 6 anos.

Asteroides raramente recebem a atenção que merecem. Não são planetas, não abrigam vida conhecida e, para muitos, são apenas “um monte de pedras”. Mas essa visão subestima enormemente o que esses corpos representam para a ciência. Os asteroides são verdadeiras cápsulas do tempo do sistema solar primitivo — fragmentos que sobreviveram bilhões de anos sem ser alterados por erosão ou movimentos de placas tectônicas, como acontece aqui na Terra.

O asteroide Bennu é um dos mais estudados da história da astronomia. Desde que a sonda OSIRIS-REx da NASA chegou a ele em 2018, as surpresas não pararam. A maior delas? A superfície de Bennu era completamente diferente do que as observações feitas da Terra tinham indicado. E agora, quase 50 pesquisadores de todo o mundo acreditam ter encontrado a explicação para esse mistério.

O estudo foi publicado na revista científica Nature Communications e promete mudar a forma como interpretamos as observações de asteroides feitas por telescópios aqui de casa.

O que a Terra dizia e o que a nave encontrou

Em 2007, o Telescópio Espacial Spitzer, da NASA, observou Bennu e mediu uma propriedade chamada inércia térmica — que é, basicamente, a capacidade de um objeto de reter calor. Pense assim: uma pedra sólida no sol demora muito mais para esfriar do que um punhado de areia. A areia tem baixa inércia térmica porque os espaços de ar entre os grãos dificultam a passagem do calor.

As medições do Spitzer indicaram que Bennu tinha baixa inércia térmica, sugerindo que sua superfície seria coberta por fragmentos pequenos e finos, quase como uma praia de areia cósmica. Com base nisso, a equipe da missão OSIRIS-REx esperava encontrar pelo menos algumas regiões suaves e arenosas — ideais para coletar amostras.

Quando a nave chegou a Bennu em 2018, o choque foi grande: em vez de areia, a superfície estava repleta de pedregulhos enormes. Era um campo rochoso e irregular, sem as áreas lisas esperadas. A contradição deixou os cientistas coçando a cabeça por anos.

A resposta estava dentro das pedras

Com as amostras de Bennu em mãos — a OSIRIS-REx trouxe 4,29 onças (cerca de 121 gramas) de material do asteroide à Terra em setembro de 2023 — os pesquisadores puderam investigar de perto. A primeira hipótese foi que os pedregulhos seriam muito porosos, ou seja, cheios de espaços vazios internos, como uma esponja. Objetos porosos perdem calor mais rápido do que objetos sólidos.

Mas a porosidade sozinha não explicava tudo. Foi então que os cientistas usaram uma técnica chamada tomografia computadorizada por raios X (XCT) — a mesma usada em hospitais para ver o interior do corpo humano sem precisar de cirurgia — para examinar as partículas de Bennu por dentro. O resultado foi revelador: as rochas estavam repletas de redes de fraturas microscópicas.

Essas rachaduras internas, invisíveis a olho nu, são as verdadeiras responsáveis pela baixa inércia térmica de Bennu. Elas criam caminhos para o calor escapar rapidamente, fazendo com que os pedregulhos se comportem termicamente como se fossem areia fina — mesmo sendo rochas grandes e sólidas por fora.

Como essas fraturas se formaram?

Bennu completa uma rotação em apenas 4,3 horas — muito mais rápido do que a Terra, que leva 24 horas. Isso significa que sua superfície passa por ciclos intensos de aquecimento e resfriamento várias vezes por dia. Imagine aquecer e resfriar uma pedra repetidamente: com o tempo, ela começa a rachar. Esse processo é chamado de fadiga térmica.

Além disso, os pesquisadores sugerem que impactos de micrometeoritos — pequenas partículas de poeira espacial que colidem com o asteroide em alta velocidade — também podem ter contribuído para criar essas fraturas ao longo de bilhões de anos.

A origem de Bennu também ajuda a entender sua estrutura. Acredita-se que ele se formou a partir dos destroços de um corpo maior que foi destruído por uma colisão catastrófica no passado distante. Os fragmentos resultantes se agruparam pela força da gravidade, formando o que os cientistas chamam de asteroide do tipo pilha de escombros — uma coleção de pedaços unidos de forma relativamente frouxa.

Bennu e o risco para a Terra

Bennu não é apenas cientificamente fascinante — ele também é classificado como um Asteroide Potencialmente Perigoso (PHA). Isso porque sua órbita cruza a órbita da Terra a cada seis anos, aproximando-se a cerca de 299.000 quilômetros do nosso planeta.

Mas não entre em pânico: os cientistas estimam uma chance de apenas 1 em 2.700 de Bennu colidir com a Terra, e isso só poderia acontecer por volta do ano 2182 — mais de 150 anos no futuro. Há tempo de sobra para estudar, planejar e, se necessário, agir.

Entender a estrutura interna de Bennu — incluindo suas fraturas — é crucial para qualquer missão futura de desvio de asteroide. Afinal, para redirecionar um asteroide, é preciso saber exatamente do que ele é feito e como reagiria a uma intervenção.

O que isso muda para a astronomia?

Essa descoberta tem implicações que vão muito além de Bennu. Asteroides carbonáceos escuros e ricos em carbono, como Bennu, são comuns no sistema solar. Quando os astrônomos os observam da Terra usando telescópios infravermelhos, eles interpretam a inércia térmica para deduzir a composição da superfície.

Se as fraturas internas podem “disfarçar” pedregulhos como areia, então muitas das interpretações feitas até agora podem precisar ser revisadas. Como disse Ron Ballouz, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins: “Finalmente podemos fundamentar nossa compreensão das observações telescópicas das propriedades térmicas de um asteroide analisando amostras desse mesmo asteroide.”

Em outras palavras: ter as amostras físicas nas mãos é insubstituível. Nenhuma observação remota, por mais sofisticada que seja, substitui a análise direta do material.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas frequentes

O que é inércia térmica e por que ela importa para os asteroides?
Inércia térmica é a capacidade de um material de reter calor. Em asteroides, ela ajuda os cientistas a deduzir se a superfície é coberta por areia fina (baixa inércia) ou por rochas grandes (alta inércia). No caso de Bennu, as fraturas internas nas rochas fazem com que elas percam calor rapidamente, simulando o comportamento da areia — o que confundiu os pesquisadores por anos.

Bennu vai colidir com a Terra?
A probabilidade é muito baixa: cerca de 1 em 2.700. E mesmo que isso acontecesse, seria por volta do ano 2182. Os cientistas continuam monitorando sua órbita com precisão cada vez maior.

O que a missão OSIRIS-REx trouxe de Bennu?
A sonda coletou cerca de 121 gramas de material da superfície de Bennu e os entregou à Terra em setembro de 2023. Esse material está sendo analisado em laboratórios ao redor do mundo e já revelou a presença de água, aminoácidos e outras moléculas orgânicas — ingredientes fundamentais para a vida.

Referências

https://science.nasa.gov/solar-system/asteroids/101955-bennu/
https://science.nasa.gov/missions/osiris-rex/asteroid-bennus-rugged-surface-baffled-nasa-we-finally-know-why/
https://skyandtelescope.org/astronomy-news/nasa-has-cracked-the-mystery-of-asteroid-bennus-boulders/
https://www.nature.com/articles/s41467-026-68505-1
https://www.asteroidmission.org/

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