Anãs Vermelhas e Vida Complexa: Por Que as Estrelas Mais Comuns Podem Não Abrigar Organismos Avançados
Anãs Vermelhas: Por Que as Estrelas Mais Comuns do Universo Podem Não Abrigar Vida Complexa
As anãs vermelhas são as estrelas mais abundantes da nossa galáxia, a Via Láctea. Por serem tão numerosas, os astrônomos consideram os planetas que as orbitam como os principais candidatos na busca por vida fora da Terra. No entanto, uma nova pesquisa sugere que a luz fraca e avermelhada dessas estrelas pode ser um obstáculo intransponível para o surgimento de vida complexa como a conhecemos.
Imagine a Terra, com suas florestas exuberantes e oceanos repletos de vida. Toda essa complexidade biológica depende de um processo fundamental: a fotossíntese. As plantas e cianobactérias usam a luz do Sol para converter dióxido de carbono e água em energia, liberando oxigênio como um subproduto. Foi esse oxigênio que, ao longo de bilhões de anos, transformou nossa atmosfera e permitiu a evolução de animais, incluindo os seres humanos. Mas será que esse processo poderia acontecer em um planeta que orbita uma anã vermelha?
A Receita da Vida: Luz, Oxigênio e Tempo
Na história da Terra, um dos eventos mais transformadores foi o Grande Evento de Oxigenação (GEO). Há cerca de 2,3 bilhões de anos, cianobactérias fotossintéticas começaram a liberar oxigênio na atmosfera. Esse processo foi lento e levou quase 2,5 bilhões de anos para que os níveis de oxigênio fossem altos o suficiente para sustentar a vida complexa, culminando na chamada Explosão Cambriana, um período de rápida diversificação da vida animal.
O fator crucial para a fotossíntese é a quantidade de luz energeticamente útil que uma planta recebe, conhecida como Radiação Fotossinteticamente Ativa (PAR). O Sol emite uma grande quantidade de luz nesse espectro. As anãs vermelhas, por outro lado, são muito mais frias e fracas. A maior parte de sua luz é emitida no espectro infravermelho, que não é tão eficiente para a fotossíntese que produz oxigênio.
TRAPPIST-1: Um Laboratório Cósmico
Para entender melhor essa questão, cientistas simularam as condições de um planeta análogo à Terra orbitando a famosa anã vermelha TRAPPIST-1, localizada a cerca de 40 anos-luz de nós. Este sistema é fascinante por possuir sete planetas rochosos de tamanho semelhante ao da Terra, com três deles na zona habitável – a região onde a água líquida poderia existir.
Os resultados do estudo, intitulado “Dearth of Photosynthetically Active Radiation Suggests No Complex Life on Late M-Star Exoplanets”, são surpreendentes. Um planeta como a Terra no sistema TRAPPIST-1 receberia apenas 0,9% da radiação fotossinteticamente ativa que nosso planeta recebe do Sol. Nessas condições, os pesquisadores estimam que levaria 63 bilhões de anos para que um evento semelhante ao Grande Evento de Oxigenação ocorresse. Considerando que o universo tem “apenas” 13,8 bilhões de anos, a conclusão é clara: não houve tempo suficiente.
Uma Competição Desleal pela Luz
Mesmo ajustando os cálculos para fatores como a adaptação das formas de vida a diferentes comprimentos de onda de luz, o cenário não melhora muito. O problema é que existe outro tipo de fotossíntese, a anoxigênica, que não produz oxigênio e requer muito menos luz. Bactérias que realizam esse tipo de fotossíntese poderiam prosperar na luz fraca de uma anã vermelha.
Como essas bactérias anoxigênicas provavelmente evoluiriam primeiro, elas dominariam o ecossistema. Elas teriam uma vantagem competitiva esmagadora sobre as bactérias que produzem oxigênio, que precisam de mais luz. O resultado? O oxigênio nunca atingiria níveis significativos na atmosfera, impedindo a ocorrência de um Grande Evento de Oxigenação e, consequentemente, o surgimento de vida animal complexa.
O Veredito Sobre as Anãs Vermelhas
Embora a pesquisa se baseie em algumas suposições, como a necessidade de oxigênio para a vida complexa, as conclusões são robustas. A simples falta de luz energética parece ser um filtro cósmico que impede o desenvolvimento de biosferas ricas em oxigênio em planetas que orbitam anãs vermelhas. Isso se soma a outros desafios já conhecidos, como as violentas erupções estelares que essas estrelas emitem, capazes de varrer a atmosfera de planetas próximos.
Isso significa que devemos desistir de procurar vida em torno das anãs vermelhas? Não necessariamente. A vida pode encontrar caminhos que não imaginamos. Planetas em torno de estrelas como o nosso Sol, no entanto, parecem ser os locais mais promissores. A busca continua, mas agora com uma compreensão mais clara de que nem toda “zona habitável” é verdadeiramente hospitaleira para a vida como a conhecemos.
Perguntas Frequentes
O que é uma anã vermelha?
É o tipo mais comum de estrela na Via Láctea. Elas são menores, mais frias e vivem muito mais tempo que estrelas como o nosso Sol.
O que é a zona habitável?
É a região ao redor de uma estrela onde as temperaturas não são nem muito quentes nem muito frias, permitindo a existência de água líquida na superfície de um planeta, um ingrediente considerado essencial para a vida.
Por que a fotossíntese é importante para a vida complexa?
A fotossíntese oxigênica, realizada por plantas e cianobactérias, libera oxigênio na atmosfera. A respiração aeróbica, que usa oxigênio, é um processo muito mais eficiente para gerar energia, o que é fundamental para sustentar organismos grandes e complexos.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Referências
https://www.nasa.gov/image-article/assessing-habitability-of-planets-around-old-red-dwarfs/
https://science.nasa.gov/exoplanets/trappist1/
https://arxiv.org/abs/2009.01259
https://www.nasa.gov/chandra
https://www.cambridge.org/core/journals/international-journal-of-astrobiology/article/potential-of-planets-orbiting-red-dwarf-stars-to-support-oxygenic-photosynthesis-and-complex-life/00C0C95A669962E6A4E7E5A722707D4C




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