Agosto de 2026: O que ver no céu do Hemisfério Sul, de Vênus radiante a um eclipse lunar quase total

Agosto de 2026: O que ver no céu do Hemisfério Sul, de Vênus radiante a um eclipse lunar quase total

O que você precisa saber

Vênus atinge seu brilho máximo do ano no dia 15 de agosto, aparecendo logo após o pôr do sol.
Um eclipse lunar quase total acontece no dia 28 de agosto, visível em toda a América do Sul.
A constelação de Escorpião, com seu coração vermelho, fica quase sobre nossas cabeças nas noites de inverno.

Imagine olhar para o céu no final de uma tarde de inverno e ver uma joia tão brilhante que parece um farol de avião parado no ar. Não é uma estrela, nem um avião. É um planeta. E não é qualquer planeta—é Vênus. Em agosto de 2026, o céu do Hemisfério Sul prepara um espetáculo para quem tiver a curiosidade de levantar os olhos para o alto. Mesmo que você esteja na cidade, com as luzes da rua piscando, alguns desses astros vão furar a poluição luminosa sem pedir licença.

Este mês não é sobre quantidade, mas sobre qualidade. Com exceção de uma única ‘estrela da tarde’, quase não veremos planetas brilhantes assim que a noite cair. Mas, como em um bom filme, a espera pelos próximos personagens vale cada minuto. Prepare seu casaco, porque as noites de agosto são frias no sul, mas o universo está mais convidativo do que nunca. Vamos explorar juntos o que está esperando por você lá em cima, começando pelo astro mais radiante do mês.

Vênus: A rainha solitária do entardecer

Ao olhar para o oeste cerca de uma hora depois de o sol se despedir, você verá um ponto luminoso que ofusca qualquer outra coisa no céu, exceto o Sol e a Lua. Essa é Vênus, a rainha solitária do entardecer. No dia 15 de agosto, ela alcança o que chamamos de ‘maior elongação’. Pense assim: imagine o Sol no centro de uma mesa de sinuca, e Vênus como uma bola girando ao redor. A maior elongação é o momento em que, da nossa perspectiva aqui na Terra, Vênus se afasta o máximo possível do Sol nessa mesa. Isso significa que ela fica bem alta e visível, brilhando 30 graus acima do horizonte oeste—uma altura equivalente a três punhos fechados esticados ao comprimento do braço.

A magnitude de Vênus—ou seja, a medida do seu brilho—chegará a impressionantes -4,4. Para você ter uma ideia, quanto mais negativo o número, mais brilhante o objeto. Essa é uma escala que parece ao contrário, mas funciona como uma lista dos mais famosos da escola: o aluno mais popular está no topo com o número mais negativo, enquanto os menos notados têm números positivos.

Se você tem um telescópio ou um binóculo potente, agosto é o mês perfeito para notar uma transformação curiosa. Não é só o brilho que muda—a forma de Vênus também. Ela passa por fases, exatamente como a nossa Lua. No começo do mês, o disco de Vênus parece uma pequena bola 56% iluminada, como se alguém tivesse mordido a metade escura. Mas, conforme as semanas passam, ela vai emagrecendo, diminuindo de fase enquanto cresce de tamanho. É como uma dança cósmica onde, para se aproximar de nós, ela precisa girar seu lado escuro. No dia 31 de agosto, com seu disco medindo 30 segundos de arco (uma medida de ângulo no céu), o Sol iluminará apenas 39% de sua face. Uma visão e tanto para quem gosta de ver a mecânica celeste em ação.

Saturno: O senhor das argolas da madrugada

Para encontrar a próxima maravilha, você precisará de um pouco de paciência, ou acordar bem tarde. Saturno nasce no leste um pouco antes das 11 da noite no início de agosto, e quase duas horas mais cedo no final do mês. O planeta está estacionado entre as estrelas de Peixes, o Peixe, bem na divisa com a constelação da Baleia. A olho nu, ele parece uma estrela dourada e constante, sem piscar.

Mas a verdadeira magia acontece quando você aponta até mesmo um pequeno telescópio para ele. As famosas argolas de Saturno são como um disco de vinil dourado flutuando no espaço. Em meados de agosto, o conjunto—planeta e anéis—se estende por 43 segundos de arco, mas o que chama a atenção é a inclinação: as argolas estão inclinadas apenas 9 graus em relação à nossa linha de visão. Imagine ver um prato de sobremesa quase de lado. Você ainda vê que é um prato, e consegue perceber sua volta, mas seu formato parece mais achatado. É exatamente assim que veremos Saturno este mês. O melhor horário para observá-lo é depois da meia-noite, quando ele já subiu no céu e a turbulência do ar diminui.

E Saturno não vem sozinho. Como um bom líder, ele arrasta um séquito de luas. Se você tiver qualquer telescópio, poderá ver Titã, a maior lua de Saturno, brilhando como um pequeno ponto de magnitude 8. Para encontrar outras três luas—Tétis, Dione e Reia—você precisará de um telescópio de cerca de 10 centímetros de abertura. Essas três, de magnitude 10, são como pequenos vagalumes dançando graciosamente ao redor do planeta.

Marte e as gêmeas celestiais

Agora vamos para a parte da madrugada que realmente exige coragem para sair da cama. Por volta das 5 da manhã no final de agosto, olhe para o nordeste, para a constelação de Gêmeos. Você verá um lindo triângulo isósceles—um triângulo de dois lados iguais—formado por três pontos luminosos. Dois deles são as estrelas Castor e Pólux, as cabeças dos irmãos gêmeos. A terceira ponta do triângulo é Marte. O Planeta Vermelho, com seu tom alaranjado característico, brilha com magnitude 1,3, um brilho quase idêntico ao das duas estrelas, como se fossem trigêmeos na mesma caminha cósmica.

Apesar de fácil de achar, Marte guarda seus segredos. Mesmo com um telescópio, o planeta parecerá um disco minúsculo de apenas 5 segundos de arco de largura, praticamente sem detalhes visíveis. É como tentar ler a capa de um livro do outro lado de um campo de futebol.

Mercúrio e Júpiter: O jogo de esconde-esconde com o Sol

Os outros dois planetas a olho nu, Mercúrio e Júpiter, estão brincando de se esconder atrás do brilho do Sol este mês. Mercúrio é o mais ousado no começo de agosto, tentando dar as caras. No dia 2, ele atinge sua maior elongação matinal, 19 graus a oeste do Sol. Isso parece bom, mas na prática ele está muito baixo, abraçado ao horizonte leste-nordeste durante o crepúsculo da manhã. Para tentar a sorte, você precisará de um horizonte limpo, sem prédios ou montanhas. Com um telescópio, verá Mercúrio como um delicado e finíssimo crescente de apenas 8 segundos de arco. Mas seja rápido: em meados de agosto, ele já terá mergulhado na luz solar, a caminho de sua ‘conjunção superior’ no dia 27, quando passa atrás do Sol visto da Terra.

Júpiter, o gigante, está igualmente tímido. Você só conseguirá vê-lo no finalzinho de agosto, meia hora antes de o sol nascer. Ele aparece na luz forte do crepúsculo apenas porque é absurdamente brilhante (magnitude -1,8), como um holofote que tenta competir com o dia nascendo. A posição da eclíptica—a estrada no céu por onde os planetas viajam—está muito rasa em relação ao horizonte leste nesta época. É como tentar ver um carro vindo de uma ladeira muito baixa; você demora mais para vê-lo surgir. Melhores vistas de Júpiter virão na primavera, quando ele se afastará mais do Sol.

Um eclipse lunar quase total e um presente para a América do Sul

Marque no seu calendário: 28 de agosto. Nessa noite, a Lua Cheia vai se encontrar com a sombra da Terra em um eclipse lunar quase total. Moradores de toda a América do Sul terão assentos VIP para o show completo. A fase parcial do eclipse começa às 23h33 no horário de Brasília (2h33 UT no dia 29) e vai até 02h52 (5h52 UT), com o pico máximo de escuridão acontecendo à 1h13 da manhã (4h13 UT). Nesse instante, impressionantes 93% da Lua estarão dentro da sombra umbral da Terra. A parte sul da Lua assumirá um tom avermelhado fantasmagórico, um efeito que muitos chamam de ‘Lua de Sangue’. A razão para essa cor é a mesma que pinta o céu de laranja no pôr do sol: a luz do Sol é filtrada e desviada pela atmosfera da Terra, e apenas a luz vermelha consegue dobrar a esquina para iluminar a Lua. É como se todas as cores do nascer e do pôr do sol do mundo fossem projetadas ao mesmo tempo no nosso satélite.

Haverá também um eclipse solar total no dia 12 de agosto, mas sua faixa de totalidade tocará apenas terras do Hemisfério Norte, como a Islândia e a Espanha. Para os sortudos leitores do sul, fica a expectativa de assistir a Lua se tingir de rubro.

O tesouro do céu de inverno: Escorpião e o Touro Real de Poniatowski

Agosto, no auge do inverno do Hemisfério Sul, nos dá um dos visuais mais deslumbrantes do ano. Em uma noite sem Lua e longe da poluição luminosa, a Via Láctea corta o céu como um enorme rio de leite derramado. Bem no alto, quase tocando o teto do mundo no começo da noite, está a constelação de Escorpião. Mesmo a olho nu, é fácil reconhecer o escorpião pelo seu ‘gancho’ de estrelas na cauda e por seu coração pulsante: a estrela Antares, de um vermelho inconfundível. Com um binóculo, perca-se nas regiões cheias de aglomerados de estrelas perto da cauda.

Mas há uma curiosidade escondida nessa região que nem todo mundo conhece. Ao norte de Escorpião, na constelação de Ofiúco (o Serpentário), existe um pequeno grupo de estrelas em forma de ‘V’ que um dia já foi chamado de Touro Real de Poniatowski. Em 1777, o astrônomo lituano Marcin Poczobutt quis homenagear o rei da Polônia, Stanislaw Poniatowski, criando um segundo touro no céu. A União Astronômica Internacional não reconhece mais esse desenho, mas o padrão ainda está lá! O ‘V’ que marca a cabeça do touro é composto pelas estrelas 66, 67, 68, 70 e 73 de Ofiúco. É um lembrete de que o céu é também um grande livro de história, um mapa de como as pessoas, no passado, projetavam suas histórias e homenagens no infinito.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas frequentes

Preciso de telescópio para ver os planetas em agosto de 2026?
Não. Vênus, Marte, Júpiter e Saturno podem ser vistos a olho nu como pontos brilhantes. No entanto, para ver as fases de Vênus, as argolas de Saturno ou as luas de Júpiter, um telescópio pequeno ou binóculo já faz maravilhas.

Por que Vênus tem fases como a Lua?
Porque Vênus orbita o Sol em um caminho mais interno que o da Terra. Quando ela está entre nós e o Sol, vemos seu lado escuro (fase ‘nova’). Conforme se move para o lado, vemos uma parte iluminada, criando fases como um crescente ou uma meia-lua.

O eclipse lunar de 28 de agosto será visível em todo o Brasil?
Sim, o eclipse inteiro será visível em toda a América do Sul. Diferente dos eclipses solares, que têm faixas estreitas de visibilidade, um eclipse lunar pode ser visto por todo o lado noturno da Terra ao mesmo tempo. Basta torcer para o céu estar limpo.

O que exatamente é uma ‘maior elongação’?
É o ponto na órbita de um planeta interno (Mercúrio ou Vênus) onde ele parece estar mais afastado do Sol no nosso céu. Como ele está ‘de lado’ em relação a nós, é o melhor momento para observá-lo, porque fica mais alto no horizonte e longe do brilho do Sol.

Referências

Astronomy.com — August 2026: What’s in the Southern Hemisphere sky this month?
NASA — Lunar Eclipse of 2028 Aug 28 (parcial similar em 2026)
União Astronômica Internacional — As Constelações

Publicar comentário