Marte ao Norte de Aldebaran: Como Ver o Raro Encontro no Céu de Julho de 2026
O que você precisa saber
• Na madrugada de 14 de julho de 2026, Marte passou bem perto — a apenas 5 graus — da estrela gigante vermelha Aldebaran, na constelação de Touro.
• Os dois brilham na mesma cor alaranjada, mas por motivos completamente diferentes: um é uma rocha coberta de ferrugem, o outro é uma fornalha estelar mais fria que o Sol.
• Perto dali dava para ver de bônus o aglomerado das Plêiades e o planeta Urano, quase invisível a olho nu, mas fácil de achar com um binóculo.
Imagine acordar bem antes do sol nascer, sair de casa ainda no escuro e olhar para cima esperando ver só um punhado de estrelas apagadas. Em vez disso, você encontra duas luzes alaranjadas quase coladas uma na outra, brilhando como brasas guardadas dentro de uma fogueira. Uma delas é um planeta que a humanidade sonha em pisar um dia. A outra é uma estrela tão velha que já começou a “inchar” antes de morrer. Foi exatamente essa cena que apareceu no céu na madrugada de terça-feira, 14 de julho de 2026.
Esse tipo de encontro se chama conjunção: quando dois astros parecem próximos vistos daqui da Terra, mesmo estando, na realidade, a distâncias completamente diferentes do nosso planeta. Marte passou a cerca de 5 graus ao norte da estrela Aldebaran, na constelação de Touro. Para ter noção do tamanho desse espaço no céu, pense na sua própria mão: com o braço esticado na direção das estrelas, três dedos juntos cobrem, mais ou menos, esses 5 graus.

Quem olhou o horizonte leste cerca de uma hora antes do nascer do Sol teve o melhor assento para o espetáculo — depois disso, a claridade do amanhecer começa a “apagar” as estrelas mais fracas, incluindo o próprio Marte.
Vale a pena prestar atenção: cada ponto de luz ali em cima carrega uma história diferente sobre distância, temperatura e até sobre o fim da vida de uma estrela — e essa noite, duas dessas histórias apareceram lado a lado.
Marte e Aldebaran: dois vermelhos, duas histórias
Olhando para o céu, Marte e Aldebaran pareciam gêmeos: brilho alaranjado, bem próximos, sem precisar de instrumento nenhum. Mas eles não brilham com a mesma intensidade. Os astrônomos medem o brilho usando uma escala chamada magnitude, em que, de forma contraintuitiva, quanto menor o número, mais brilhante é o objeto — como numa competição de golfe, onde a menor pontuação vence. Aldebaran marcou magnitude 0,9 naquela madrugada, enquanto Marte ficou em 1,3: a estrela venceu por pouco a disputa de brilho.
A diferença mais interessante, porém, está na origem da cor. Marte é avermelhado porque sua superfície é coberta por um tipo de ferrugem: óxido de ferro, o mesmo composto que forma aquela camada alaranjada em um prego esquecido no quintal depois da chuva. Quando a luz do Sol bate nessa poeira e volta para os nossos olhos, o resultado é aquele tom de tijolo que dá o apelido de “Planeta Vermelho”.
Aldebaran, por outro lado, não reflete luz de ninguém — ela produz a própria luz, como toda estrela. Só que sua superfície está mais fria do que a do nosso Sol. Pense em um pedaço de metal sendo aquecido em uma forja: primeiro fica vermelho, depois laranja, depois amarelo e, se continuar esquentando, quase branco. Estrelas funcionam do mesmo jeito. O Sol, mais quente, tem cor amarelada; Aldebaran, mais fria, fica no vermelho-alaranjado. Mesma cor no céu, duas explicações completamente diferentes.
Touro, o Touro: o palco desse encontro
Toda essa cena acontece dentro da constelação de Touro, um dos desenhos mais antigos que a humanidade reconhece no céu. Aldebaran é chamada de “o olho do touro” — ela marca o olho da figura que os povos antigos imaginaram ao conectar as estrelas da região, como um gigantesco desenho de conecte-os-pontos.
Aldebaran fica a cerca de 66 anos-luz da Terra — a luz que você vê dela hoje saiu de lá há 66 anos, como uma fotografia antiga chegando atrasada. Marte, na mesma noite, estava a poucos minutos-luz de distância. Ou seja: apesar de aparecerem colados no céu, os dois estão separados por uma distância imensa — a estrela fica milhões de vezes mais longe que o planeta. É um dos truques mais bonitos da astronomia: a perspectiva coloca lado a lado objetos que não têm nada a ver um com o outro.
As Plêiades, as irmãzinhas vizinhas

Um pouco mais para cima e à direita de Marte e Aldebaran, outro grupo de estrelas chama atenção: as Plêiades, também conhecido como M45 ou “as Sete Irmãs”. Diferente de Marte e Aldebaran, que só parecem vizinhos por causa da perspectiva, as estrelas das Plêiades são de fato vizinhas de verdade — elas nasceram juntas, da mesma nuvem de gás e poeira, e ainda viajam agrupadas pelo espaço, como uma turma de amigos de infância que nunca se separou.
O aglomerado fica a cerca de 445 anos-luz da Terra e contém mais de mil estrelas, embora a olho nu só distingamos um punhado das mais brilhantes — geralmente seis ou sete pontinhos, origem do apelido “Sete Irmãs”. Imagens do telescópio Hubble revelam nuvens de poeira azulada ao redor dessas estrelas, brilhando porque refletem a luz das próprias irmãs — parecido com poeira suspensa no ar quando um facho de luz atravessa um quarto escuro.
Urano, o planeta escondido logo ali
Bem próximo das Plêiades, mas bem mais discreto, estava Urano. O sétimo planeta do Sistema Solar é tão distante e reflete tão pouca luz que fica no limite do que o olho humano consegue captar — só visível a olho nu em céu bem escuro, longe das luzes da cidade. Com um binóculo comum, porém, ele aparece sem dificuldade.
Urano tem uma característica única: gira praticamente deitado. Enquanto a Terra e a maioria dos planetas giram como um pião na vertical, Urano gira quase de lado, como uma bola de boliche rolando pelo chão em vez de girar em pé. Os cientistas acreditam que uma colisão antiga com um objeto do tamanho da Terra tenha “derrubado” o planeta nessa posição, e ele nunca mais se levantou.
Como e quando observar esse tipo de encontro
Para acompanhar cenas como essa, o horário é tudo. O ideal é sair de casa cerca de uma hora antes do nascer do Sol, quando o céu ainda está escuro o suficiente para revelar estrelas e planetas, mas a região leste já está bem acima do horizonte. Na noite do encontro, a Lua estava em fase crescente bem fina, com apenas 1% de iluminação — quase invisível, o que ajudou a manter o céu escuro e os detalhes mais visíveis.
Não é preciso equipamento caro. A olho nu já dá para notar Marte e Aldebaran lado a lado; um binóculo comum, desses usados para observar pássaros, já é suficiente para revelar Urano e mais detalhes das Plêiades. Vale a pena procurar um local afastado das luzes da cidade, deixar os olhos se acostumarem com o escuro por uns dez minutos e apontar o olhar para o leste.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Perguntas frequentes
Marte e Aldebaran correm o risco de colidir, já que aparecem tão próximos no céu?
Não. Essa proximidade é só um efeito de perspectiva: Marte estava a poucos minutos-luz da Terra, enquanto Aldebaran está a 66 anos-luz. Os dois só parecem vizinhos porque suas posições no céu se alinharam, vistas daqui da Terra.
É preciso ter telescópio para ver esse encontro entre Marte e Aldebaran?
Não. Em um local com pouca poluição luminosa, os dois pontos alaranjados já aparecem a olho nu. Um binóculo simples ajuda a apreciar melhor as cores e ainda permite enxergar Urano e mais detalhes das Plêiades.
O que exatamente é uma “conjunção” em astronomia?
É o nome dado ao momento em que dois ou mais astros — planetas, estrelas ou a Lua — parecem próximos um do outro no céu visto da Terra. Isso não significa proximidade real no espaço, apenas um alinhamento aparente das posições.
Por que Aldebaran é chamada de “o olho do touro”?
Porque, na constelação de Touro, essa estrela ocupa exatamente a posição que os antigos observadores do céu imaginaram como o olho do animal, ao desenhar mentalmente linhas conectando as estrelas da região.
Referências
Astronomy.com — The Sky Today on Tuesday, July 14: Mars sits north of Aldebaran
NASA Science — Uranus: Facts
NASA Science — Messier 45 (The Pleiades)
Space.com — Aldebaran: The Star in the Bull’s Eye




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