Cratera Schickard: como observar este gigante lunar de 212 km antes do amanhecer
O que você precisa saber
• A cratera Schickard mede 212 km de diâmetro — maior que o estado de Sergipe — e está em posição privilegiada de observação nesta madrugada.
• Um fenômeno chamado libração lunar faz a Lua balançar levemente, revelando regiões que normalmente ficam escondidas nas bordas.
• Você consegue observar com um binóculo simples, uma hora antes do nascer do Sol.
• Saturno também brilha no céu da madrugada, visível a olho nu como uma estrela dourada.
Se você já olhou para a Lua em uma noite clara e reparou naquelas manchas escuras e circulares na superfície, saiba que estava vendo crateras — cicatrizes imensas deixadas por rochas espaciais que colidiram com a Lua há bilhões de anos. Na madrugada desta terça-feira, 12 de maio de 2026, uma dessas crateras merece toda a sua atenção: Schickard, um dos maiores circos de impacto visíveis daqui da Terra, exibindo-se em toda a sua grandeza graças a um fenômeno raro chamado libração lunar.
A boa notícia: você não precisa ser astrônomo, nem ter equipamento profissional. Com um binóculo razoável e um local minimamente escuro, é possível ver este gigante lunar com seus próprios olhos. Vamos entender o que faz esta madrugada ser especial.

O Que é a Cratera Schickard?
Imagine que você joga uma bola de boliche enorme em uma superfície de cimento ainda fresco. O impacto cria um buraco circular, com bordas levantadas ao redor e o fundo relativamente plano no centro — como um prato fundo de cimento. É exatamente assim que funciona uma cratera de impacto, só que em escala imensamente maior.
A cratera Schickard tem 212 quilômetros de diâmetro. Para ter uma ideia: se ela estivesse sobre o Brasil, cobriria toda a região metropolitana de São Paulo e ainda se estenderia por mais de 80 km em todas as direções. Ela fica na região sudoeste da Lua, próximo à borda visível, o que normalmente a faz parecer distorcida — uma elipse achatada em vez de um círculo. Mas hoje essa situação muda completamente.
O Que é Libração Lunar — e Por Que Ela Torna Esta Madrugada Especial?
Aqui vem o conceito mais importante desta madrugada. Pense assim: quando você assiste a alguém caminhando em círculo ao seu redor, você consegue ver um pouquinho mais do lado esquerdo e depois do lado direito da pessoa, conforme ela se move. Com a Lua acontece algo parecido, só que mais sutil.
A Lua orbita a Terra em uma trajetória levemente oval — não um círculo perfeito. Por causa disso, ela acelera e desacelera ao longo do mês. Esse comportamento faz com que, vista da Terra, a Lua pareça balançar levemente de um lado para o outro ao longo das semanas. Esse balanço se chama libração lunar — do latim librare, oscilar.
O efeito prático é que em certas datas conseguimos enxergar um pouco além das bordas normais da Lua. Hoje, a libração moveu a cratera Schickard para longe da borda, fazendo com que ela apareça muito mais circular e nítida do que o habitual. É uma janela de observação que não se repete toda semana — aproveite.
O Que Você Vai Ver ao Observar Schickard
Ao apontar seu binóculo ou telescópio para a região sudoeste da Lua, você vai identificar Schickard por estas características marcantes:
Borda leste brilhante: A beira da cratera do lado direito (leste) vai aparecer iluminada pela luz do Sol como um traço quase branco. A Lua nesta fase recebe luz rasante do Sol, o que cria sombras profundas e destaca o relevo com precisão — é como iluminar um prato de papelão de lado para ver cada amassado.
Assoalho escuro e plano: O interior de Schickard é surpreendentemente liso. Isso porque, muito tempo depois do impacto original, lava vulcânica subiu do interior da Lua e inundou o assoalho da cratera — como encher uma tigela com concreto e deixar secar. O resultado é um fundo escuro e relativamente plano, rodeado por bordas mais claras.
Diferenças de textura no interior: Se você observar com atenção, vai notar que o assoalho não é completamente uniforme. A parte sudoeste é mais lisa; a parte nordeste tem textura levemente diferente, resultado de eventos geológicos que aconteceram em épocas distintas — como uma parede que foi rebocada em dois momentos diferentes.
Pequenas crateretas no assoalho: Impactos menores que ocorreram depois da formação de Schickard deixaram pequenas marcas no seu interior. São como cicatrizes dentro de uma cicatriz maior — cada uma representa um asteroide que caiu ali depois da grande inundação de lava.
Quando e Como Observar
O horário ideal é uma hora antes do nascer do Sol. Em locais a cerca de 40° de latitude norte, o Sol nasce por volta das 5h48. Então a janela de observação ideal é entre as 4h00 e as 5h00 da manhã, horário local. No Brasil, ajuste de acordo com o nascer do sol na sua cidade.
Nesse momento, a Lua estará cerca de 20° acima do horizonte leste — uma medida fácil de estimar: estique o braço e feche o punho. Um punho corresponde a cerca de 10°. Dois punhos empilhados na vertical dão os 20° necessários. A Lua estará com apenas 25% da face iluminada, em quarto minguante — e é exatamente essa luz lateral que cria as sombras que revelam os detalhes da superfície.
O que usar: Um binóculo 10×50 já é suficiente para ver Schickard com clareza. Um telescópio de abertura entre 60mm e 80mm vai revelar os craterlets no assoalho e as diferenças de textura. Se você tem um adaptador de celular para binóculo ou telescópio, pode tentar fotografar também.
O Que Mais Ver no Céu Esta Madrugada
A Lua não está sozinha nesta madrugada. Saturno também é visível antes do amanhecer, brilhando com magnitude 0,9. Aqui vai uma explicação rápida sobre magnitude: é a escala que os astrônomos usam para medir o brilho dos objetos no céu. Pense nela como uma classificação ao contrário — quanto menor o número, mais brilhante o objeto. Magnitude 0,9 é muito brilhante, comparável às estrelas mais luminosas da noite. Saturno vai aparecer como uma estrela dourada e estável, sem piscar como as estrelas comuns, no horizonte leste.
Nos próximos dias, dois encontros especiais acontecerão: no dia 14 de maio, a Lua passará a apenas 4° de distância de Netuno — tão distante que só é visível com telescópio — e depois a 6° de Saturno. Esses encontros visuais, chamados de conjunções, são espetaculares para fotografia.
Perguntas frequentes
Preciso de telescópio para ver a cratera Schickard?
Não. Um bom binóculo 10×50 já permite identificar Schickard com clareza. O telescópio revela mais detalhes, mas o binóculo é suficiente para começar.
Por que a libração lunar acontece?
Porque a Lua orbita a Terra em trajetória oval, não circular. Isso faz com que ela acelere e desacelere ao longo do mês, criando a impressão de um leve balanço. Em certas datas, vemos um pouquinho mais de um lado da Lua do que em outras.
Schickard é a maior cratera da Lua?
Não, mas é uma das maiores visíveis da Terra. A cratera Bailly, ainda mais ao sul, é ligeiramente maior, porém mais difícil de observar por estar ainda mais próxima da borda lunar. Schickard é uma das mais impressionantes para observadores iniciantes.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Referências
https://www.astronomy.com/observing/the-sky-today-tuesday-may-12-2026/




Publicar comentário