Cratera Schickard: como observar este gigante lunar de 212 km antes do amanhecer

Cratera Schickard: como observar este gigante lunar de 212 km antes do amanhecer

O que você precisa saber

A cratera Schickard mede 212 km de diâmetro — maior que o estado de Sergipe — e está em posição privilegiada de observação nesta madrugada.
Um fenômeno chamado libração lunar faz a Lua balançar levemente, revelando regiões que normalmente ficam escondidas nas bordas.
Você consegue observar com um binóculo simples, uma hora antes do nascer do Sol.
Saturno também brilha no céu da madrugada, visível a olho nu como uma estrela dourada.

Se você já olhou para a Lua em uma noite clara e reparou naquelas manchas escuras e circulares na superfície, saiba que estava vendo crateras — cicatrizes imensas deixadas por rochas espaciais que colidiram com a Lua há bilhões de anos. Na madrugada desta terça-feira, 12 de maio de 2026, uma dessas crateras merece toda a sua atenção: Schickard, um dos maiores circos de impacto visíveis daqui da Terra, exibindo-se em toda a sua grandeza graças a um fenômeno raro chamado libração lunar.

A boa notícia: você não precisa ser astrônomo, nem ter equipamento profissional. Com um binóculo razoável e um local minimamente escuro, é possível ver este gigante lunar com seus próprios olhos. Vamos entender o que faz esta madrugada ser especial.

Cratera Schickard fotografada pela sonda Lunar Orbiter 4 da NASA em 1967 mostrando o assoalho plano e as bordas elevadas
Imagem da cratera Schickard obtida pela NASA Lunar Orbiter 4 em 1967 — note o assoalho escuro e plano resultado de antigas inundações de lava e as bordas bem definidas que caracterizam grandes impactos lunares.

O Que é a Cratera Schickard?

Imagine que você joga uma bola de boliche enorme em uma superfície de cimento ainda fresco. O impacto cria um buraco circular, com bordas levantadas ao redor e o fundo relativamente plano no centro — como um prato fundo de cimento. É exatamente assim que funciona uma cratera de impacto, só que em escala imensamente maior.

A cratera Schickard tem 212 quilômetros de diâmetro. Para ter uma ideia: se ela estivesse sobre o Brasil, cobriria toda a região metropolitana de São Paulo e ainda se estenderia por mais de 80 km em todas as direções. Ela fica na região sudoeste da Lua, próximo à borda visível, o que normalmente a faz parecer distorcida — uma elipse achatada em vez de um círculo. Mas hoje essa situação muda completamente.

O Que é Libração Lunar — e Por Que Ela Torna Esta Madrugada Especial?

Aqui vem o conceito mais importante desta madrugada. Pense assim: quando você assiste a alguém caminhando em círculo ao seu redor, você consegue ver um pouquinho mais do lado esquerdo e depois do lado direito da pessoa, conforme ela se move. Com a Lua acontece algo parecido, só que mais sutil.

A Lua orbita a Terra em uma trajetória levemente oval — não um círculo perfeito. Por causa disso, ela acelera e desacelera ao longo do mês. Esse comportamento faz com que, vista da Terra, a Lua pareça balançar levemente de um lado para o outro ao longo das semanas. Esse balanço se chama libração lunar — do latim librare, oscilar.

O efeito prático é que em certas datas conseguimos enxergar um pouco além das bordas normais da Lua. Hoje, a libração moveu a cratera Schickard para longe da borda, fazendo com que ela apareça muito mais circular e nítida do que o habitual. É uma janela de observação que não se repete toda semana — aproveite.

O Que Você Vai Ver ao Observar Schickard

Ao apontar seu binóculo ou telescópio para a região sudoeste da Lua, você vai identificar Schickard por estas características marcantes:

Borda leste brilhante: A beira da cratera do lado direito (leste) vai aparecer iluminada pela luz do Sol como um traço quase branco. A Lua nesta fase recebe luz rasante do Sol, o que cria sombras profundas e destaca o relevo com precisão — é como iluminar um prato de papelão de lado para ver cada amassado.

Assoalho escuro e plano: O interior de Schickard é surpreendentemente liso. Isso porque, muito tempo depois do impacto original, lava vulcânica subiu do interior da Lua e inundou o assoalho da cratera — como encher uma tigela com concreto e deixar secar. O resultado é um fundo escuro e relativamente plano, rodeado por bordas mais claras.

Diferenças de textura no interior: Se você observar com atenção, vai notar que o assoalho não é completamente uniforme. A parte sudoeste é mais lisa; a parte nordeste tem textura levemente diferente, resultado de eventos geológicos que aconteceram em épocas distintas — como uma parede que foi rebocada em dois momentos diferentes.

Pequenas crateretas no assoalho: Impactos menores que ocorreram depois da formação de Schickard deixaram pequenas marcas no seu interior. São como cicatrizes dentro de uma cicatriz maior — cada uma representa um asteroide que caiu ali depois da grande inundação de lava.

Quando e Como Observar

O horário ideal é uma hora antes do nascer do Sol. Em locais a cerca de 40° de latitude norte, o Sol nasce por volta das 5h48. Então a janela de observação ideal é entre as 4h00 e as 5h00 da manhã, horário local. No Brasil, ajuste de acordo com o nascer do sol na sua cidade.

Nesse momento, a Lua estará cerca de 20° acima do horizonte leste — uma medida fácil de estimar: estique o braço e feche o punho. Um punho corresponde a cerca de 10°. Dois punhos empilhados na vertical dão os 20° necessários. A Lua estará com apenas 25% da face iluminada, em quarto minguante — e é exatamente essa luz lateral que cria as sombras que revelam os detalhes da superfície.

O que usar: Um binóculo 10×50 já é suficiente para ver Schickard com clareza. Um telescópio de abertura entre 60mm e 80mm vai revelar os craterlets no assoalho e as diferenças de textura. Se você tem um adaptador de celular para binóculo ou telescópio, pode tentar fotografar também.

O Que Mais Ver no Céu Esta Madrugada

A Lua não está sozinha nesta madrugada. Saturno também é visível antes do amanhecer, brilhando com magnitude 0,9. Aqui vai uma explicação rápida sobre magnitude: é a escala que os astrônomos usam para medir o brilho dos objetos no céu. Pense nela como uma classificação ao contrário — quanto menor o número, mais brilhante o objeto. Magnitude 0,9 é muito brilhante, comparável às estrelas mais luminosas da noite. Saturno vai aparecer como uma estrela dourada e estável, sem piscar como as estrelas comuns, no horizonte leste.

Nos próximos dias, dois encontros especiais acontecerão: no dia 14 de maio, a Lua passará a apenas 4° de distância de Netuno — tão distante que só é visível com telescópio — e depois a 6° de Saturno. Esses encontros visuais, chamados de conjunções, são espetaculares para fotografia.

Perguntas frequentes

Preciso de telescópio para ver a cratera Schickard?
Não. Um bom binóculo 10×50 já permite identificar Schickard com clareza. O telescópio revela mais detalhes, mas o binóculo é suficiente para começar.

Por que a libração lunar acontece?
Porque a Lua orbita a Terra em trajetória oval, não circular. Isso faz com que ela acelere e desacelere ao longo do mês, criando a impressão de um leve balanço. Em certas datas, vemos um pouquinho mais de um lado da Lua do que em outras.

Schickard é a maior cratera da Lua?
Não, mas é uma das maiores visíveis da Terra. A cratera Bailly, ainda mais ao sul, é ligeiramente maior, porém mais difícil de observar por estar ainda mais próxima da borda lunar. Schickard é uma das mais impressionantes para observadores iniciantes.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Referências

https://www.astronomy.com/observing/the-sky-today-tuesday-may-12-2026/

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