Voyager 1: NASA desliga mais um instrumento para salvar a missão interestelar

Voyager 1: NASA desliga mais um instrumento para salvar a missão interestelar

O que você precisa saber

A NASA desligou o experimento LECP da Voyager 1 em 17 de abril de 2026 para economizar energia.
A sonda opera há quase 50 anos e seus geradores de energia produzem menos da metade da potência original.
A Voyager 1 ainda possui dois instrumentos científicos ativos: um que capta ondas de plasma e outro que mede campos magnéticos.
A equipe da NASA planeja um grande ajuste chamado “Big Bang” para tentar prolongar ainda mais a missão.
Se o plano funcionar, o instrumento desligado poderá ser reativado no futuro.

Imagine uma sonda espacial que foi lançada quando seus avós eram jovens, cruzou o Sistema Solar inteiro e hoje viaja solitária pelo espaço entre as estrelas. Esse é o caso da Voyager 1, a nave mais distante da Terra já construída pela humanidade. Lançada em 1977 pela NASA, ela percorreu mais de 25 bilhões de quilômetros e, em agosto de 2012, tornou-se o primeiro objeto feito pelo ser humano a cruzar a fronteira do nosso sistema solar e entrar no chamado espaço interestelar.

Mas manter uma sonda funcionando por quase cinco décadas não é tarefa simples. Em 17 de abril de 2026, engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), na Califórnia, tomaram uma decisão difícil: desligar mais um dos instrumentos científicos da Voyager 1. O instrumento em questão é o LECP (Low-energy Charged Particles, ou Experimento de Partículas de Baixa Energia), que estudava o vento solar e o meio interestelar desde o lançamento da sonda.

A razão é simples, mas preocupante: a Voyager 1 está ficando sem energia. E cada watt economizado pode ser a diferença entre a missão continuar ou ser encerrada para sempre.

Como a Voyager 1 gera energia tão longe do Sol?

Você pode estar se perguntando: se a Voyager 1 está tão longe do Sol, como ela ainda funciona? Afinal, painéis solares não funcionariam a essa distância. A resposta está em três pequenos geradores nucleares chamados RTGs (Radioisotope Thermoelectric Generators, ou Geradores Termoelétricos de Radioisótopos).

Pense nos RTGs como “pilhas nucleares”. Eles usam o calor gerado pelo decaimento natural do Plutônio-238 — um elemento radioativo — e convertem esse calor em eletricidade. É como um aquecedor que nunca para de funcionar, só que em vez de aquecer um cômodo, ele alimenta os sistemas de uma sonda espacial.

O problema é que o Plutônio-238 vai se desgastando ao longo do tempo. Após quase 50 anos de operação contínua, os RTGs da Voyager 1 produzem menos da metade da energia original, com uma queda de aproximadamente 4 watts por ano. Para se ter uma ideia, 4 watts é o equivalente a uma lâmpada de LED pequena. Parece pouco, mas quando a margem de energia é tão apertada, cada watt conta.

O que era o instrumento LECP e por que ele foi desligado?

O LECP operava praticamente sem interrupção desde 1977. Sua função era detectar e medir partículas de baixa energia no espaço — como elétrons e íons — que viajam tanto no vento solar quanto no meio interestelar. Imagine o LECP como um “contador Geiger” sofisticado do espaço: ele media a intensidade e a direção das partículas invisíveis que permeiam o cosmos.

Desde que a Voyager 1 cruzou a fronteira do Sistema Solar, o LECP forneceu dados valiosos sobre a estrutura do meio interestelar (ISM), detectando variações de pressão e densidade de partículas além da heliosfera — a bolha magnética criada pelo vento solar que envolve e protege nosso sistema solar das radiações cósmicas mais intensas.

A decisão de desligar o LECP não foi tomada de forma impulsiva. A equipe da missão já havia elaborado um plano de quais instrumentos seriam desligados e em que ordem, à medida que a energia fosse diminuindo. O LECP era o próximo da lista para a Voyager 1 — o mesmo instrumento já havia sido desligado na Voyager 2 em março de 2025.

O que precipitou a decisão agora?

Em 27 de fevereiro de 2026, a Voyager 1 sofreu uma queda inesperada de energia durante uma manobra de rotação planejada. Esse tipo de evento pode acionar o sistema de proteção contra subtensão da sonda — um mecanismo automático de segurança que desliga instrumentos para evitar que a nave inteira entre em colapso.

Se esse sistema automático fosse acionado, a equipe teria de passar por um longo processo de recuperação. Considerando que a Voyager 1 está a 25 bilhões de quilômetros da Terra, um sinal de rádio leva cerca de 23 horas para chegar até ela. Ou seja, qualquer comando enviado da Terra só chegaria à sonda quase um dia depois. Para evitar esse cenário, a equipe decidiu agir preventivamente e desligar o LECP de forma controlada.

Como explicou Kareem Badaruddin, gerente da missão Voyager no JPL, em comunicado oficial da NASA:
“Embora desligar um instrumento científico não seja a preferência de ninguém, é a melhor opção disponível. A Voyager 1 ainda possui dois instrumentos científicos operacionais — um que capta ondas de plasma e outro que mede campos magnéticos. Eles ainda funcionam muito bem, enviando dados de uma região do espaço que nenhuma outra nave humana jamais explorou.”

O que ainda funciona na Voyager 1?

Mesmo com o desligamento do LECP, a Voyager 1 não está completamente “cega”. Dois instrumentos científicos continuam em operação:

1. PWS (Plasma Wave Subsystem) — Capta ondas de plasma no espaço interestelar, funcionando como um “ouvido” que escuta as vibrações do cosmos.
2. MAG (Magnetômetro) — Mede os campos magnéticos ao redor da sonda, ajudando a entender como o campo magnético interestelar interage com a fronteira do nosso sistema solar.

Além disso, um pequeno motor que faz o sensor do LECP girar para varrer todas as direções foi mantido ligado. Isso significa que, se mais energia se tornar disponível no futuro, o instrumento poderá ser reativado.

O plano “Big Bang”: uma última aposta para prolongar a missão

A equipe da NASA não está de braços cruzados. Enquanto trabalha para manter a Voyager 1 operacional, os engenheiros estão finalizando uma estratégia maior chamada de “Big Bang”. O nome é ousado, e o plano também: a ideia é desligar simultaneamente um grupo de dispositivos que consomem energia e ativar alternativas de baixo consumo para manter a sonda aquecida o suficiente para continuar coletando dados científicos.

O plano será testado primeiro na Voyager 2, que tem um pouco mais de energia disponível e está mais próxima da Terra. Os testes estão previstos para maio e junho de 2026. Se tudo correr bem, a equipe tentará implementar o “Big Bang” na Voyager 1 a partir de julho. Se der certo, o LECP poderá ser reativado para continuar coletando dados do meio interestelar.

Por que isso importa para a ciência?

As sondas Voyager são os únicos objetos feitos pelo ser humano que já saíram do Sistema Solar. Elas são como mensageiros solitários que nos enviam postais do território mais remoto já explorado. Os dados que coletam são absolutamente únicos: nenhuma outra sonda está nessa região do espaço.

A heliosfera — essa bolha magnética gerada pelo vento solar — age como um escudo protetor contra as radiações cósmicas mais intensas vindas de outras estrelas e galáxias. Entender como essa fronteira funciona é fundamental para planejar futuras missões tripuladas ao espaço profundo e para compreender melhor a estrutura do nosso sistema solar.

Cada dado enviado pela Voyager 1 é, literalmente, uma informação que não existe em nenhum outro lugar. Por isso, cada instrumento desligado representa uma perda científica real — mas também a única forma de garantir que a missão continue por mais alguns anos preciosos.

E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!

Perguntas frequentes

Por que a Voyager 1 está ficando sem energia?
Os geradores nucleares (RTGs) da sonda usam o calor do decaimento do Plutônio-238 para gerar eletricidade. Após quase 50 anos, esse material radioativo se desgastou e os geradores produzem menos da metade da energia original, com queda de cerca de 4 watts por ano.

O instrumento desligado pode ser religado no futuro?
Sim. A equipe manteve o motor do sensor do LECP ativo justamente para permitir a reativação caso o plano “Big Bang” libere energia suficiente. Nada está descartado definitivamente.

Quando a Voyager 1 vai parar de funcionar completamente?
Não há uma data exata, mas estima-se que a sonda possa continuar operando até o final da década de 2020 ou início dos anos 2030, dependendo do sucesso das estratégias de economia de energia da equipe da NASA.

Referências

https://science.nasa.gov/mission/voyager/voyager-1/
https://science.nasa.gov/mission/voyager/interstellar-mission/
https://www.nasa.gov/image-article/components-of-heliosphere/
https://science.nasa.gov/mission/voyager/instruments/
https://www.universetoday.com/articles/another-instrument-shut-down-on-voyager-1-to-extend-its-interstellar-mission

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