Proba-3: satélite europeu que cria eclipses artificiais volta a se comunicar
Um mês de silêncio no espaço
Imagine enviar uma mensagem para alguém e não receber resposta por um mês inteiro. Agora imagine que essa pessoa está a centenas de quilômetros acima de nossas cabeças, flutuando no espaço. Essa foi a situação vivida pela equipe da Agência Espacial Europeia (ESA) com um de seus satélites mais inovadores: o Coronógrafo, parte da missão Proba-3.
No dia 19 de março de 2026, a ESA anunciou que finalmente voltou a receber sinais do Coronógrafo. A estação terrestre de Villafranca, na Espanha, captou um pacote de dados com informações sobre voltagem, temperatura e outros parâmetros do satélite. O gerente da missão, Damien Galano, resumiu o alívio de toda a equipe: “Receber notícias do Coronógrafo é uma notícia incrível, e um grande alívio!”
O que é a missão Proba-3?
A missão Proba-3 é um projeto pioneiro da ESA lançado em dezembro de 2024 a partir da Índia. Ela é composta por dois satélites que trabalham juntos como uma dupla inseparável: o Ocultador e o Coronógrafo.
Pense assim: o Ocultador funciona como uma mão que você coloca na frente dos olhos para bloquear o sol. Ao fazer isso, você consegue enxergar detalhes ao redor do sol que normalmente são invisíveis por causa do brilho intenso da estrela. O Coronógrafo, por sua vez, é o “olho” que aproveita essa sombra para observar a coroa solar — a camada mais externa e misteriosa da atmosfera do Sol.
O que é a coroa solar e por que ela importa?
A coroa solar é a atmosfera exterior do Sol. Ela é visível a olho nu apenas durante eclipses totais naturais, quando a Lua bloqueia completamente o disco solar. Nesse momento, surge um halo branco e brilhante ao redor do Sol — isso é a coroa.
O problema é que eclipses naturais são raros e duram apenas alguns minutos. A missão Proba-3 resolve isso criando eclipses artificiais e contínuos no espaço, permitindo que os cientistas estudem a coroa por períodos muito mais longos. Isso é fundamental para entender fenômenos como as tempestades solares, que podem afetar satélites, redes elétricas e até a navegação por GPS aqui na Terra.
A dança milimétrica entre dois satélites
O que torna a Proba-3 verdadeiramente extraordinária é a precisão absurda com que os dois satélites voam juntos. Eles cruzam o espaço a cerca de 150 metros de distância um do outro — o equivalente a um prédio de 50 andares — mantendo essa posição com uma precisão de apenas 1 milímetro.
Para ter uma ideia do desafio, imagine dois carros viajando a 300 km/h, lado a lado, mantendo exatamente a mesma distância entre si com a precisão de uma moeda. Qualquer desvio arruinaria o eclipse artificial e, consequentemente, toda a missão.
O que deu errado em fevereiro?
Em meados de fevereiro de 2026, uma anomalia técnica atingiu o Coronógrafo. O problema desencadeou uma reação em cadeia que fez o satélite perder o controle de sua orientação no espaço — o que os engenheiros chamam de “atitude”. Sem saber para onde estava apontando, o satélite também não conseguiu entrar no chamado modo de segurança, um estado de hibernação projetado para proteger o equipamento em situações de emergência.
Sem o Coronógrafo funcionando, a missão inteira ficou paralisada. Afinal, os dois satélites precisam trabalhar juntos. Se um cai, o outro perde sua razão de existir.
O retorno: sinais de vida após um mês
Depois de semanas de tentativas, a estação de Villafranca finalmente captou um sinal do Coronógrafo. O satélite estava estável, com o painel solar voltado para o Sol, o que garantia energia suficiente para manter os sistemas essenciais ligados e recarregar a bateria.
No entanto, a equipe ainda não pode comemorar plenamente. Após um mês exposto ao frio extremo do espaço — temperaturas que podem chegar a -270°C em regiões sem luz solar — os sistemas internos precisam de tempo para aquecer antes que qualquer ação mais complexa seja tomada. A equipe está realizando verificações de saúde para avaliar se o satélite sofreu danos permanentes.
O que vem por aí?
O futuro da missão ainda é incerto. A ESA precisa avaliar com cuidado o estado do Coronógrafo antes de retomar as operações científicas. Mas o simples fato de ter recebido um sinal já é uma vitória enorme. Como disse o próprio gerente da missão, foi um “grande alívio”.
A Proba-3 representa um marco na história da exploração espacial europeia: é a primeira missão de voo em formação de precisão do mundo. Se o Coronógrafo se recuperar completamente, a missão poderá retomar sua tarefa única de revelar os segredos da coroa solar de uma forma que nenhuma outra missão conseguiu antes.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Perguntas frequentes
O que é o modo de segurança de um satélite?
É um estado de operação mínima ativado automaticamente em emergências. O satélite desliga funções não essenciais, aponta seus painéis solares para o Sol para garantir energia e aguarda instruções da Terra.
Por que a coroa solar é tão difícil de estudar?
O brilho do disco solar é milhões de vezes mais intenso que o da coroa, tornando impossível observá-la sem bloquear o Sol. Eclipses naturais permitem isso por apenas alguns minutos. A Proba-3 cria esse bloqueio de forma contínua e controlada no espaço.
A missão Proba-3 está perdida?
Não necessariamente. O Coronógrafo voltou a se comunicar e está estável. A ESA está avaliando os danos antes de retomar as operações. A missão pode continuar se não houver danos irreversíveis.
Referências
https://www.esa.int/Enabling_Support/Space_Engineering_Technology/Proba-3
https://www.space.com/space-exploration/missions/a-great-relief-europes-proba-3-solar-eclipse-satellite-phones-home-after-a-month-of-silence
https://phys.org/news/2026-03-miracle-europe-reconnects-lost-spacecraft.html




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