Super-Terras: Como a Radiação Estelar Esculpe os Planetas Mais Comuns do Universo
A Receita Cósmica: Como Nasce uma Super-Terra?
Você já se perguntou quais são os planetas mais comuns no universo? Surpreendentemente, não são gigantes gasosos como Júpiter ou mundos rochosos como o nosso. Os tipos de planetas mais abundantes que os astrônomos encontraram até hoje são as Super-Terras e os sub-Netunos. Mesmo assim, nosso Sistema Solar não possui nenhum deles, um verdadeiro quebra-cabeça cósmico.
Uma Super-Terra é exatamente o que o nome sugere: um planeta rochoso, mas significativamente maior e mais massivo que a Terra. Já um sub-Netuno é um mundo com uma atmosfera gasosa espessa, porém menor que Netuno. Por décadas, a “receita” para criar esses planetas intrigou os cientistas. Agora, graças a observações detalhadas de um sistema estelar jovem, o segredo parece ter sido revelado: tudo se resume a um processo violento de “emagrecimento” planetário, impulsionado pela radiação de sua própria estrela.
Imagine um escultor que começa com um grande bloco de mármore e, lentamente, remove o excesso para revelar a obra de arte final. A natureza faz algo parecido. Planetas jovens e “inchados” são esculpidos pela intensa energia de sua estrela, perdendo suas vastas atmosferas até que reste apenas um núcleo denso — uma Super-Terra — ou um mundo gasoso menor, um sub-Netuno.
V1298 Tau: Um Berçário Planetário Sob Observação
A chave para desvendar esse mistério está a cerca de 350 anos-luz de distância, no sistema V1298 Tau. Lá, uma estrela muito jovem, com apenas 23 milhões de anos (uma criança em termos estelares), abriga quatro planetas gigantes em órbitas extremamente próximas. Descobertos em 2019, esses mundos são enormes, com raios que variam de cinco a dez vezes o da Terra, mas suas densidades são incrivelmente baixas.
Os cientistas os descrevem como planetas “fofos” ou “inchados” (puffy planets, em inglês). Eles são como versões gigantes e menos densas de Netuno. Por estarem tão perto de sua estrela-mãe, eles são bombardeados por uma quantidade colossal de radiação de alta energia, como raios-X e luz ultravioleta. É um ambiente verdadeiramente hostil.
Essa proximidade e a juventude da estrela criam o cenário perfeito para um fenômeno conhecido como fotoevaporação. A radiação intensa aquece a atmosfera desses planetas, fazendo-a expandir e “inchar” ainda mais. Com o tempo, essa atmosfera aquecida é arrancada e soprada para o espaço pelo vento estelar, um fluxo constante de partículas emitidas pela estrela.
O Processo de “Emagrecimento” Cósmico
Ao medir a massa e o raio dos planetas em V1298 Tau, os astrônomos confirmaram que eles estão ativamente perdendo suas atmosferas. Os dois planetas mais internos do sistema estão em um caminho claro para perder completamente seus invólucros gasosos. Em cerca de 100 milhões de anos, tudo o que restará serão seus grandes núcleos rochosos. Eles se transformarão em Super-Terras.
Os dois planetas mais externos, por estarem um pouco mais distantes, recebem uma dose menor de radiação. Eles também perderão uma parte significativa de suas atmosferas, mas provavelmente conseguirão reter um envelope gasoso. O resultado? Eles se tornarão sub-Netunos, os mundos gasosos em miniatura que também são extremamente comuns na galáxia.
Essa descoberta é um marco, pois oferece uma visão direta do processo evolutivo que dá origem aos dois tipos de planetas mais comuns já encontrados. Estamos, literalmente, assistindo à “fabricação” de um sistema planetário típico, um processo que explica a ausência de planetas intermediários no famoso “deserto de Netunos quentes”, uma região orbital onde planetas do tamanho de Netuno raramente sobrevivem.
Por Que o Sistema Solar é Diferente?
A descoberta em V1298 Tau também levanta uma questão fascinante: se esse processo é tão comum, por que não aconteceu no nosso Sistema Solar? A resposta provavelmente está relacionada às condições iniciais do nosso sistema. Nossos planetas gigantes, como Júpiter e Saturno, se formaram muito mais longe do Sol, onde a radiação era fraca demais para arrancar suas atmosferas.
Os planetas rochosos internos, como a Terra e Marte, provavelmente nunca tiveram atmosferas massivas e “inchadas” para começo de conversa. As condições específicas de formação e a arquitetura única do nosso Sistema Solar nos tornaram uma exceção na galáxia, um lugar sem Super-Terras ou sub-Netunos, mas com as condições perfeitas para a vida como a conhecemos.
O estudo de sistemas como V1298 Tau não apenas nos ajuda a entender a formação de outros mundos, mas também a apreciar a singularidade e a complexidade da nossa própria vizinhança cósmica. Cada descoberta nos aproxima de responder às perguntas mais fundamentais sobre nosso lugar no universo.
Perguntas Frequentes
O que é uma Super-Terra?
É um planeta rochoso com uma massa e um raio maiores que os da Terra, mas menores que os de Netuno. São considerados um dos tipos de exoplanetas mais comuns.
O que é fotoevaporação planetária?
É o processo pelo qual a atmosfera de um planeta é arrancada pela intensa radiação (como raios-X e UV) de sua estrela hospedeira. Isso é mais comum em planetas que orbitam muito perto de suas estrelas.
Nosso Sistema Solar pode ter tido uma Super-Terra no passado?
É improvável. Os modelos de formação do Sistema Solar sugerem que as condições não eram favoráveis para criar uma Super-Terra que tenha sido destruída ou ejetada posteriormente. Nossa configuração planetária parece ser estável há bilhões de anos.
E não se esqueça, mantenha sempre seus olhos no céu!
Referências
https://www.nature.com/articles/s41586-025-09840-z
https://exoplanetarchive.ipac.caltech.edu/
https://www.jpl.nasa.gov/news/nasa-data-reveals-possible-reason-some-exoplanets-are-shrinking
https://www.esa.int/Science_Exploration/Space_Science/Webb/Webb_hints_at_atmosphere_around_rocky_exoplanet
https://www.space.com/astronomy/exoplanets/how-to-make-a-super-earth-the-universes-most-common-planets-are-whittled-down-by-stellar-radiation




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